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           O viajante que arribe a Santarém não deve perder o ânimo caso ela lhe exponha à vista aquilo que me apresentou: grandes superfícies comerciais e anestéticas amálgamas de prédios. O centro histórico tem obra de tomo que desfaz a primeira impressão.

            Quando iniciei a passeata a pé, os contrastes continuaram, ao menos no meu espírito. Nesta terra, que associo a Salgueiro Maia e à liberdade — e que ao capitão presta homenagem no local onde os escalabitanos receberam a coluna militar, por ele comandada, que no dia 25 de abril de 1974 teve papel decisivo na revolução dos cravos —, vi, no Jardim da República, um grande cartaz do Chega.

            Nem o coreto elegante nem as margaridas viçosas me atardaram nesse espaço verde, queria visitar a Igreja de Nossa Senhora da Piedade, edifício seiscentista erguido para celebrar a vitória portuguesa na Batalha do Ameixial. Tem planta de cruz grega e cúpula octogonal em que assenta coruchéu de pedra encimado por uma cruz. Mirá‑la é observar o «estilo chão», porquanto estamos diante de bloco austero, maciço, com múltiplas linhas retas. O interior desiludiu‑me, só gostei da escultura que evoca o orago e dos embutidos de mármore que paramentam a igreja.

            A caminho da Capela de Nossa Senhora do Monte, reparei num anúncio da Residencial Beirante em que se pedia um «ajudante continuado». Que será isso? Imagino que procurassem um trabalhador — ou, como se diz no miserável e austeritário léxico neoliberal, um «colaborador» — com vínculo permanente.

            A capela fica em zona de casario baixo e achava‑se fechada quando lá passei. Ainda assim, o esforço valeu a pena. Gostei das vistas exteriores, nomeadamente da galilé renascentista, que traz elegância a uma construção de estrutura singela, e da edícula de inspiração mudéjar que acoita uma estatueta da Virgem, de pedra policromada.

            Depois do almoço, na Taberna do Quinzena II, atravessei o centro histórico e visitei a Igreja da Graça, uma das obras que levantam a capital do Gótico. No pano central da respetiva frontaria avultam uma rosácea gótico‑flamejante e o portal, emoldurado por alfiz e indiciador de sopro vindo da Batalha. A igreja tem três naves, separadas por séries de arcos quebrados assentes em pilares cruciformes com capitéis esculpidos. Monumentos funerários e lajes sepulcrais justificaram que prolongasse a visita. Dentre eles, destaco a sepultura em campa rasa de Pedro Álvares Cabral (morreu em Santarém, cidade a que o ligavam laços de família) e, pelo trabalho e arte que incorpora, o túmulo de D. Pedro de Menezes, o primeiro governador de Ceuta, e da sua mulher, D. Beatriz Coutinho: arca de pedra calcária, com os jacentes de mãos dadas, bem lavrada nas quatro faces.

            Fez‑se hora de abrir o meu dia ao património secular. Havia marcado visita à casa‑museu da Fundação Passos Canavarro, para lá me dirigi. Recebeu‑me, e guiou‑me, Pedro Canavarro, o trineto de Passos Manuel que habita na casa e que, ao longo da vida, se dedicou à política e a outros misteres. O acervo, que se compõe, por exemplo, de pinturas, porcelanas, tapeçaria e mobiliário, permitiu‑me conhecer em pormenor a criação de Pedro de Sousa — tem obra de mérito na gravura e no desenho — e da pintora francesa Mimi Fogt.

            Os objetos expostos não terão valor cimeiro no mercado da arte, mas, graças às explicações e aos viveres de Pedro Canavarro, o giro deu sota e ás a alguns que fiz ante peças de impossível apreçamento.

            Da coleção geral, saliento uma colcha pendurada no quarto em que nasceu e dorme Pedro Canavarro, e onde pernoitou, em 18 de julho de 1843, Almeida Garrett. Data da segunda metade do século xvɪɪ e, provavelmente, procede da China. Franjada de fio de seda salmão e auricolor, tem fundo de seda azul bordado com fio dourado e com seda de vários tons. Exibe motivos vegetalistas e, no centro, um círculo com um pelicano que parece alimentar as crias. Agradou‑me a combinação de cores, surpreendeu‑me o seu (ainda) razoável estado de conservação, pus‑me a imaginar os intercâmbios que trouxeram a manta para Portugal.

            Mimi Fogt (1923‑2005) distinguiu‑se pelos retratos pintados a óleo e, em menor medida, por nus e paisagens. Expressou‑se igualmente através de aguarela, desenho, escultura e tapeçaria. Na casa‑museu da Fundação Passos Canavarro é possível ver o grosso da sua produção artística. Não me espraiarei em considerações acerca do trabalho de Mimi Fogt, não tenho competência para tal. Digo apenas que houve uma obra que prendeu a minha atenção, Autorretrato debaixo do mar, um óleo sobre tela, de 1965, que mostra uma mulher lindíssima, uma musa marinha com olhos magnéticos e cabeleira sedutora, própria de criatura insubmissa.

            De Pedro de Sousa (1950‑1994), o albergue de Canavarro expõe xilogravuras pelas quais corre um bestiário fantástico e um grupo de estranhas criaturas decorrentes da fusão entre humanos e animais. Não sou capaz de encarecer um dos trabalhos, só assinalo que os figurões que neles se encontram com mestria captam a atenção do espetador para logo o perturbar.

            Alentado por fim de tarde soalheiro, estiquei o passeio. Fui às Portas do Sol, desafoguei‑me com as vistas tantas vezes repetidas em postais e estampas. Passei diante do Teatro Rosa Damasceno, deplorei o estado em que se encontra essa amostra de modernismo e art déco. No Teatro Sá da Bandeira, embora a pátina esteja a ganhar a parede, a parte superior da fachada mantém‑se elegante.

            Jantei na taberna Ó balcão e pernoitei em hotel de debuxo moderno. É pena só ter ido a Santarém, com olho e alma de viajante, na tarde da minha vida.

 

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Paulo Pego
Author: Paulo PegoEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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