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Praxe? Antes uma visita ao Museu Municipal de Portalegre





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            O acervo do Museu Municipal de Portalegre é constituído por peças provenientes do Convento de Santa Clara e do Convento de São Bernardo, por obras doadas por particulares ou adquiridas pelo município. A coleção de arte religiosa merece ênfase, a de artes plásticas e de artes decorativas é interessante.

            Deixo, em primeiro lugar, algumas notas acerca do que vi na secção de arte religiosa.

            O Menino foi retirado de algumas imagens de Santo António agora expostas no museu. O funcionário que orientou o meu giro disse que a explicação pode ser esta: levaram‑no mulheres que só o teriam voltado a pôr na estatueta caso o santo lhes tivesse arranjado casamento; porquanto tal não sucedeu, elas não o restituíram.

            A propósito das imagens em que o Menino Jesus surge vestido com aprumo, o mesmo senhor adiantou que, em épocas de elevada mortalidade infantil, os bebés eram batizados quando contavam apenas alguns dias de vida. Depois, os pais cediam a roupa que a criança trajara na cerimónia, ofereciam‑na para cobrir o Menino. Acreditavam que, desse jeito, o seu rebento beneficiaria de proteção divina.

            Dentre muita empresa que cativou o meu interesse, destaco: o órgão, loução e elegante, atribuído a Pascoal Caetano Oldovini; a estante de missal, espécime de arte namban, do século xvɪ ou da centúria seguinte, feita de cedro japonês lacado com embutidos de madrepérola; o retábulo de madeira do século xvɪ, da Escola Flamenga, com escultura que representa a pietà, a Virgem que chora a morte de Cristo, após a descida da cruz (aí vejo uma mulher que, diante do defunto, mantém a dignidade); a imagem indo‑portuguesa de Nossa Senhora da Conceição, de marfim; o sacrário de ébano, com adornos de prata.

            A referida imagem de Nossa Senhora da Conceição é graciosa e reconciliadora, o leitor merece que eu dê a palavra a quem sabe da poda, Ruy Ventura: «Estamos perante uma das várias imagens da Imaculada provenientes do Mosteiro de São Bernardo, cujo orago era Nossa Senhora da Conceição. Esculpida na segunda metade do século xvɪɪ e assente sobre uma peanha em madeira, de secção triangular, com três meninos ajoelhados que sustentam um globo achatado, envolvido por uma serpente (atributo da Virgem vencedora do mal), é sem dúvida uma das mais interessantes representações concepcionistas produzidas pelas oficinas indo‑portuguesas de Goa. Esguia, de maneira a poder aproveitar ao máximo o dente de marfim em que foi esculpida, a Virgem orante apresenta‑se frontal, caracterizando‑se por um deliberado esquematismo, tanto nos cabelos longos e ondulados, em madeixas, quanto na teoria de nuvenzinhas em que assenta os pés (invisíveis sob a túnica), como é apanágio da arte produzida no Estado da Índia. A túnica é apertada com o cinto dos “cristãos de São Tomé”, tendo sobre o peito um firmal com a forma de uma flor de lótus. No rosto, idealizado e com olhos rasgados, destaca‑se um subtil sorriso, próprio da beatitude.»[1]

            Quanto ao supramencionado sacrário, vale a pena ler de novo o que Ruy Ventura escreveu: «No decurso do Concílio de Trento (1545‑1563), o mais longo da história da Igreja, a centralidade do culto eucarístico foi evidenciada de todas as maneiras, não só através de meios literários, mas também por intermédio da reorganização dos lugares de culto e da produção de obras de arte escultóricas e pictóricas. A maioria das igrejas remodelou as suas capelas principais de modo a erguer nelas um trono destinado à adoração solene da Presença Real de Cristo na hóstia consagrada. Também os sacrários, até aí peças discretas, muitas vezes embutidas em paredes laterais, passaram a ter a maior evidência, transitando para o centro dos retábulos eucarísticos e assumindo dimensões assinaláveis e um investimento artístico de grande mestria. Esculpido em madeira e ornado com aplicações de prata, no século xvɪɪ, o sacrário do Mosteiro de São Bernardo é um dos melhores exemplos nacionais dessa monumentalidade arquitectónica e decorativa. Com a forma de meio‑hexágono, tem associado a si um conjunto de pinturas alusivas à Paixão e à Ressurreição de Cristo que, de algum modo, são chave interpretativa do significado último do Santíssimo Sacramento.»[2]

            No espaço dedicado às artes plásticas e às artes decorativas, o meu gosto imperito afunilou‑se e só me leva a salientar obras picturais, a saber, Rua do Castelo, aguarela de Álvaro Mendes, Palácio Amarelo, óleo sobre tela de Joaquina Miranda Parra, e Mercado na Praça da República, óleo sobre tela de Lauro Corado. Joaquina Miranda Parra nasceu em Portalegre, Lauro Corado foi professor na cidade.

            Visitei Portalegre no âmbito de um giro que, em regime de slow travel, fiz em Portugal, depois de anos sem pôr os pés no meu país. Anelava por portugalidade, não uma portugalidade boçal e desajeitada, como tantas vezes percebo no Norte da Europa, nem a que afeta portes e maneiras setentrionais, que talvez já nem seja portugalidade. Buscava, isso sim, o lusitanismo genuíno, ainda que tocado por algum tipo de provincianismo.

            Senti‑me, pois, afortunado por, no Museu Municipal de Portalegre, ter visto uma mostra temporária de louça de Sacavém, um florão do passado luso, que chegava ao palácio do rico e à casa do pobre. Conforme dizia o anúncio, Sacavém é outra loiça. E era, entre outros objetos expostos, o folclórico conjunto de pratos, decorados por Nuno Lopes — esteve mais de duas décadas ao serviço da Fábrica de Loiça de Sacavém —, que reproduzem gente da Nazaré, um toureiro, um bailarico saloio e uma romaria minhota.

            No dia em que fui ao Museu Municipal de Portalegre, assisti, no Jardim do Tarro, ao infame espetáculo da praxe académica. Um par de burgessos, embrutecidos pela sua posição na hierarquia da praxe, fazia prédicas patéticas e ditava as ordens que os caloiros, por meio de exercícios infantis e estupidificantes, executavam. Que tristeza, que rebaixamento — chegar ao ensino superior ou ao ensino politécnico e começar a nova vida com atos de regressão cívica, humana e mental.

            Sei que o meu voto cairá em saco roto, mas aqui o formulo. Substituí as indignidades da praxe por uma visita ao Museu Municipal, a melhor das introduções ao orbe portalegrense. Em vez de vos aviltardes, saireis de lá mais ricos.

[1] VENTURA, Ruy, in AAVV, Catálogo [do] Museu Municipal [de] Portalegre, coordenação geral de Laura Portugal Romão e de Sónia de Campos Alves, coordenação editorial do Museu Municipal de Portalegre, Portalegre, Câmara Municipal de Portalegre, 2021, p. 53.

[2] VENTURA, Ruy, na obra citada anteriormente, p. 57.

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Paulo Pego
Author: Paulo PegoEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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