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No museu Middelheim





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            Num sábado de outubro, em Antuérpia, eu e a Jūratė visitámos o museu Middelheim, uma gliptoteca ao ar livre. O seu ponto forte é a escultura do período compreendido entre o fim do século xɪx e o século xxɪ (inclusive). A luz, as cores do outono e o sossego tornaram a nossa jornada ainda mais agradável. Houve lapsos de tempo em que só ouvimos o frufru que causámos ao pisar as folhas secas.

            Ali cheguei em branco. Por tipo idiossincrático que pede estruturação e que a considera decisiva para responder de forma plena à ânsia de saber, preciso, todavia, de um critério que me oriente na visita a exposições fartas em obras. Assim, na loja do museu comprei um livro com esclarecimentos relativos à fina flor do acervo, por ele nos guiámos. No presente texto, deixo notas sobre peças que apreciei ou que provocaram o meu espírito.

            Giacomo Manzù é autor de diversas esculturas que representam cardeais. Naquela que vimos no museu Middelheim, de 1952 e feita de bronze, os olhos soabertos do clérigo estão voltados para o solo. A expressão que se lhe lê no rosto e a batina que muito esconde transmitem sinal de reserva e de fechamento, criam a ideia de um homem virado para si e para o seu mundo. A estátua é digna de laurel artístico, mas se a arrecadei na memória foi por causa do liame mental que logo estabeleci entre ela e um dos temas da atualidade: o encobrimento da pedofilia no seio da Igreja, mormente da Igreja Católica.

            Esta infunde valores importantes do cristianismo, tem servidores norteados pelo amor a Deus e ao próximo, desempenha papel de relevo na direção espiritual dos fiéis, na esfera social e intelectual. Sucede que os silêncios e omissões da Igreja Católica em Portugal, na Espanha e na Itália não são o melhor modo de lidar com o abuso sexual de menores confiados à sua tutela. A um ror de gente farão perder a vontade de a ter como mediadora entre Deus e os humanos, tanto mais que, por cair inúmeras vezes no moralismo, sexual e não só, ela dá o flanco aos que lhe imputem hipocrisia.

            Guardo‑me de dizer que radica no celibato eclesiástico todo o ato pedófilo praticado por sacerdote: há pederastas casados. O exercício do poder e disfunções de vária ordem contam‑se entre os fatores que levam a abusar de menores, mas o celibato obrigatório também contribui para isso. Ele não é um dogma e pôr‑lhe termo permitiria aos padres — pelo menos a alguns — viver de forma plena a sua sexualidade e ter um costado afetivo enriquecedor. Prouvera a Deus que, no âmbito da Igreja Católica, o celibato e a ordenação de mulheres fossem objeto de debate sério e de agendamento prioritário.

            A observação ajuda a formar juízo. Um amigo meu, casado e com dois filhos, é clérigo da Igreja Lusitana, um ramo da Comunhão Anglicana. Vejo‑o feliz e realizado nas várias dimensões da vida, nunca a sua ação pastoral foi prejudicada por ter família. Aliás, esta oferece‑lhe um quadro, um respaldo e um prospeto que o motivam para o exercício do santo ministério. O júbilo interior e o sentido de proximidade que percebo nesse amigo cativam e facilitam a divulgação da mensagem. Eis um caso que conheço. Naquilo que tem de bom, creio ser passível de generalização.

            Numa série de esculturas com motivos equestres — cavalos e cavaleiros —, Marino Marini exprimiu a sua visão do mundo e do que nele acontecia. O artista dava mostras de pessimismo e de um desassossego que crescia com o passar dos anos. Nas primícias, o homem montava o cavalo, controlava‑o, adotava pose de mando. Depois, o dramatismo ganhou lugar e o animal libertou‑se do jugo. Miracolo, a escultura de bronze exposta no Middelheim, é expressiva: o equídeo arremessa o cavaleiro do seu dorso. Miracolo data de 1951 (a série teve início nos anos trinta do século xx e prolongou‑se por várias décadas). Que figuração brutal usaria Marini nos dias que correm? Neste tempo de desmandos do clima, de pandemia, de conflitos latentes ou declarados, de demagogia e populismo. Neste período em que faltam matérias‑primas e insumos.

            Intituladas Fenster I e Fenster II (Janela I e Janela II), as duas composições de Isa Genzken com armação de aço e uma moldura de resina epóxi não foram concebidas para observar as árvores que estão atrás delas. Tomando como referência o vulgo, a posição elevada da moldura só permite a vista em contrapicado. Interessa a obra, a ventana, não aquilo que através dela se possa enxergar. Os trabalhos em apreço, de 1993, nada têm de prodigioso. Tocaram‑me em virtude de os ter associado a um tipo humano que execro, composto por indivíduos que, supostamente, têm vasto saber e podem abrir portas da ilustração, mas que, afinal, padecem de autofilia e usam o tempo que lhes concedamos para um exercício, às vezes patético, de egolatria. Vi‑o amiúde no meio universitário conimbricense, chegou a mim por via das janelas de Genzken, ouriçou‑me pensar em três ou quatro espécimes do género (não bastasse a vaidade, traziam ainda o ferrete indelével da província).

            Pelo canto se conhece o pássaro, pela obra se conhece o artista. Erwin Wurm desforma alguns objetos que vai apresentar ao público. Misconceivable, de 2010, inscreve‑se em tal vezo: é um veleiro de estrutura abaulada que está preso ao coroamento de um muro e pende para as águas do canal. Nesse barco sui generis percebi uma alegoria: os mares em que navegamos distorcem‑nos a alma e acabarão por nos deixar imobilizados. O humor é uma das referências de Wurm e a verdade é que, mal vi Misconceivable, esbocei um sorriso.

            Uma estátua de ferro coberta por pátina de bronze, de 1972, materializa o tributo de Vic Gentils a Lode Craeybeckx, advogado e jornalista que foi burgomestre de Antuérpia e fundador do museu Middelheim. Achei curioso o modo de ilustrar aquilo que se sabia acerca de Craeybeckx. Os olhos expressam cogitares e vistas sagazes de político. A cabeça é grande, como convinha a um vulto do socialismo, e tem aberturas que encarnam o espírito dinâmico do antigo burgomestre. A zona do peito parece pronta para receber os estímulos que venham do mundo — alusão ao jeito franco do homenageado e ao seu apego às artes —, as teclas de piano simbolizam a eloquência de Craeybeckx e uma bomba evoca o fluxo de caixa do município durante o seu mandato. A toga e as relhas lembram, respetivamente, o causídico, o trabalhador e o mundo do trabalho. O registo de chaminé traduz a necessidade de o político perceber o sentido dos ventos e o pequeno tubo na parte inferior e posterior da estátua serve para ele se libertar do stresse provocado pelo exercício do múnus. Falta de imaginação é defeito que não se pode apontar a Vic Gentils.

            Menciono ainda três trabalhos que, embora não me tenham suscitado especial reação, agradaram bastante ao meu olho imperito. Na falta de outro préstimo, as notas sempre poderão ser vistas como alvitres que deixo ao leitor que visite o local.

            Com firma de John Körmeling e construída entre 2004 e 2012, Artiesteningang (Entrada dos artistas) é uma obra de arquitetura que arremeda as estações de serviço de tempos pretéritos, nomeadamente as dos Estados Unidos. Fica numa das zonas de acesso ao museu. As formas arredondadas e os tons brancos, rosa e vermelhos dão‑lhe um delicioso ar rétro. No gradil que encima a cobertura encontram‑se os nomes de autores cujos trabalhos estão expostos no Middelheim.

            Albert Szukalski embebia pedaços de tecido em gesso húmido e punha‑os no corpo dos seus modelos; quando o gesso endurecia, o modelo deixava a escultura a que havia dado forma. Mediante uso de poliéster, Szukalski reforçava a resistência da construção. Dialoog, de 1974, um conjunto que representa duas figuras separadas por uma mesa, obedeceu ao dito modus procedendi. As figuras levaram‑nos a pensar num par de fantasmas. Mercê de certa imagética que nos acompanha, também Maria e José nos acudiram à cachimónia.

            François Pompon ficou conhecido pelas suas esculturas de animais. Tinham formas simplificadas, superfícies polidas, revelavam desprezo pelo pormenor. A estátua de urso-polar patente ao público no museu Middelheim data dos anos vinte do século passado. Os caprichos do clima fizeram a pedra ganhar rugosidade, mas isso não apagou o talhe caraterístico de Pompon.

            Na esplanada do café MIKA demos descanso ao corpo e conforto ao estômago. Honrámos a terra bebendo Tripel d’Anvers. Tanto os visitantes do espaço museal como aqueles que só ali estavam pelos comes e bebes e pelo cavaqueio ajudavam a criar uma atmosfera de elegância, descontração e vagar. Não havia mostra da azáfama nem da diversidade rácica caraterísticas de várias zonas de Antuérpia. Por mor do contraste que ocasionavam, duas pessoas chamaram o meu tento. Primo, um homem que meneava a cabeça e esbugalhava os olhos. Parecia tomado por inquietação que lhe provocava exoftalmia, dir‑se‑ia esperar mil polícias que o viessem prender. Secundo, uma ruiva que, além de outras falhas no trajar, usava um boné preto com pala curta e um adorno argênteo, vistoso e de mau gosto, na parte frontal. Olhando‑a de frente, seria fulminado por tal atavio e teria dificuldade em conversar com ela. Oxalá a senhora soubesse que, em muitos turnos da vida, less is more, less is really more.

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Paulo Pego
Author: Paulo PegoEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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