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No concelho de Campo Maior





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            Tomar um bom café é um dos prazeres que tenho na vida. Noutra escala, ele conta‑se entre os bens mais consumidos no planeta e mais transacionados em bolsa. No alfoz de Campo Maior, o Centro de Ciência do Café apresenta a lenda de Kaldi e desdobra‑se em espaços dedicados à geografia, à história, à produção, ao consumo e à distribuição de café. O recurso a meios interativos torna a visita deveras interessante. Além disso, abriga uma estufa que reproduz atmosfera de cafezal e que transporta o circunstante para algum ponto do cinturão do café, área situada entre o Trópico de Câncer e o Trópico de Capricórnio onde, mercê da altitude e das condições edafoclimáticas, o cafeeiro medra.

            A lenda de Kaldi reza que, na Abissínia, um pastor notou que as suas cabras se desassossegavam depois de comerem as bagas de um arbusto. Intrigado, o próprio Kaldi as provou e terá sentido o seu efeito excitante.

            Apreciei elegantérrimos moinhos e máquinas de café, afiei artes para reconhecer o cimbalino perfeito, tive notícia de que o café expresso nasceu em 1901 graças a Luigi Bezzera. Ele inventou uma caldeira, dividida em câmaras e aquecedores, que permitia preparar rapidamente a bebida de café em chávena.

            À despedida, é oferecido um expresso com mistura (blend) feita exclusivamente naquele local. Um primor, uma rica bica.

            Presto homenagem a uma desconhecida, a mãe do Francisco e do Santiago. Trazia‑os janotas, vestindo de igual modo, e ela própria trajava e procedia com aticismo. O giro, tanto o deles como o meu, durou cerca de duas horas. Os miúdos correram e cabriolaram, a senhora acompanhou‑os e prestou‑lhes múltiplos esclarecimentos. Logrou chegar ao fim do percurso expositivo com a pose e o garbo que denotava no início.

            Na sede do concelho, a Capela dos Ossos estava fechada. Entrei na Igreja Matriz, um templo de pendor verticalista em que duas torres sineiras ladeiam o corpo central. No interior desta igreja‑salão, cujo orago é Nossa Senhora da Expetação, avulta a pluralidade — não a diversidade — de retábulos de mármore.

            Almocei na esplanada d’O Faisão. Excelentes tiras de porco preto, com migas e batatas fritas em forma de palito, e um sápido travesseiro de noiva, bem pode ela dormir descansada. Quase toda a clientela era espanhola, gente sem salero e sem leques, que abusava de air quotes e se mostrava embirrante por álibis fúteis. Nuestros hermanos transpunham para a refeição a atrabile das redes sociais.

            O Museu de Arte Sacra está instalado na Capela de Nossa Senhora do Carmo, daí vem parte do seu encanto. No que toca ao recheio, a minha retentriz guardou os dois conjuntos retabulares. Do museu se acede a um must da excursão a Campo Maior, a Igreja de São João Batista. Data do século xvɪɪɪ e foi edificada em local onde existia outra igreja, destruída pela explosão de um paiol. Tem planta octogonal e o respetivo interior agrada pela profusão de mármore, claro e escuro, e pela forma como o lavraram.

            Na Casa do Assento, dantanho usada para fins militares, operam o Museu Aberto e o Centro Interpretativo das Festas do Povo (Casa das Flores). O primeiro pertence ao género etnográfico e inclui a recriação, assaz fotogénica, de uma mercearia e de uma taberna. Sou um macho sigma e rejeito o machismo. Influenciado por esse conceito, ou porque as coisas eram mesmo assim, achei que a biblioteca recomposta no Museu Aberto cheirava a machismo, deve ter sido um couto destinado aos homens. O primeiro pedaço do percurso na Casa das Flores é instrutivo, aprende‑se muito. Porém, se o leitor a visitar, suceder‑lhe‑á o mesmo que a mim. Todas as impressões arrecadadas nesse troço obnubilar‑se‑ão e cederão ante o que verá no fim do caminho expositivo: um arruamento decorado com as flores de papel caraterísticas das Festas do Povo, um belíssimo jogo de cores e etnografia.

            Beatriz da Silva e Menezes nasceu em Campo Maior, talvez em 1424, no seio de uma família nobre. Chamada à corte para acompanhar D. Isabel, futura rainha de Castela e Leão, despertou, em virtude da sua beleza, o ciúme dela, que a mandou fechar num baú. Durante o período de cativeiro, a Virgem Maria terá aparecido a Beatriz e incumbiu‑a de fundar uma ordem religiosa para celebrar o mistério da Imaculada Conceição. Já em Toledo, pois aí ingressara num mosteiro, Beatriz criou a Ordem da Imaculada Conceição. Foi canonizada pelo Papa Paulo VI e tornou‑se a primeira santa portuguesa. Fui à casa onde ela nasceu. Apesar do raconto de Teresa, funcionária competente e empenhada que associava o real, o misticismo e a devoção, acho que os objetos expostos têm apenas um interesse relativo.

            O calor deu‑me quebranto, não prestei especial atenção ao castelo nem à fortificação abaluartada, sinais da importância geoestratégica de Campo Maior noutras eras. Queria aproximar‑me da alma local, sentia que a melhor maneira de o fazer era estabelecer interlocução com gente da terra. Entabulei conversa com um homem que lesmava nas cercanias do alcácer. Apanhei com um chorrilho de queixas acerca dos ciganos e do seu modo de vida. Apontando para uma gitana que, a uns 100 metros de nós, varria um troço de rua fronteiro à sua casa, o dito senhor mostrou‑se indignado por haver uma instituição que lhe levava o «avio» a casa, avio pelo qual ela nada pagava. Sem moralismos, procurei morigerá‑lo, corrigi o seu discurso e apresentei‑lhe um par de evidências: os zíngaros são cidadãos de pleno direito e um cigano português é tão português como eu ou aquele meu interlocutor de ocasião. Não o convenci. Penso que, em terras como Campo Maior, as autoridades precisam de usar um discurso didático versando, nomeadamente, sobre as medidas assistenciais de que os ciganos beneficiam. A crispação que senti pode levar alguns a entornar o caldo e embastece os movimentos populistas.

            No caminho de volta ao sítio em que estacionara o carro, parei para observar o bonito edifício da câmara municipal e o pelourinho rematado por uma estátua da Justiça… com os olhos destapados.

            A aldeia histórica de Ouguela, a cerca de 8 quilómetros de Campo Maior, fixou‑se no domínio português por força do Tratado de Alcanizes (1297), que definiu fronteiras entre Portugal e Castela. Porque tem boa cor e prepondera num outeiro, o lugarejo fortificado é cenográfico, se visto da estrada. Todavia, dentro do recinto muralhado, senti degradação a que só a Casa do Governador escapava. Em vários pontos, tresandava a urina. Percorri o caminho de ronda e, graças ao panorama que daí avistei, recebi o prémio por ter ido a Ouguela.

            Antes de me despedir do concelho de Campo Maior, passeei na área externa do Santuário de Nossa Senhora da Enxara, situado perto do leito do rio Xévora. Em época pascal, atrai muitos peregrinos. Diz a lenda que uma mulher lavava roupa no rio, que a sua filha se afastou e alhures encontrou uma senhora que lhe ofereceu um brinco de ouro. A miúda juntou‑se de novo à mãe e mostrou‑lhe o pingente. Ambas foram ao sítio onde a catraia havia encontrado a estranha e lá se depararam com a imagem de Nossa Senhora, sobre uma pedra redonda. A notícia do sucesso circulou, o povo acorreu ao local, levou a imagem para Campo Maior e decidiu construir uma ermida, equidistante do local do achamento e da vila. Todas as manhãs, a imagem desaparecia e surgia no lugar da aparição. Assim, a grei determinou que aí se devia erguer a orada.

            Acrescentam alguns que, na falta de água, decorria uma cerimónia durante a qual a população deitava a pedra ao rio, pedindo a Nossa Senhora da Enxara que chovesse. A prece dava bom resultado e a pedra era devolvida ao santuário. Hoje, por causa do desregramento climático, a Virgem já deve ter perdido a cabeça.

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Paulo Pego
Author: Paulo PegoEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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