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            — Este reputado professor alemão também me cita. E este cita‑me várias vezes. Veja!

            No seu gabinete da Faculdade de Direito de Évora, o catedrático Vítor Gomes Herédia retirava da estante os manuais dos autores que mencionavam as suas obras e mostrava‑os a Daniel, mestrando brasileiro que ali se apresentara para recolher um livro. O encontro com Herédia, homem corcunda e de muitos ademanes, acabou por durar cerca de uma hora. Entre outras revelações, Daniel ficou a saber que o seu interlocutor era amiúde consultado pelo poder político, tuteava dois ministros e, quando investigava na Alemanha, fora convidado para jantar na casa de um professor alemão de direito, coisa rara e suma honra naquelas paragens.

            Daniel não estava habituado a tanta empáfia e o giro que o levara a diversos países da América do Sul tornara‑o ainda mais simples, telúrico. Visitara, nomeadamente, o Vale Encantado, na Patagónia argentina. Séculos de erosão aí deixaram, na matéria lítica, formas que receberam do imaginário popular designações como «Los leones enamorados», «El elefante», «El centinela», «El dedo de Dios», «La diligencia» e «El tren expreso». Encantos da pedra, magnetismo da terra. Depois de tal viagem e da abertura de espírito que ela reforçara, não havia melhor empresa do que um mestrado em Portugal. Outrossim, após terminar relação com namorada cujos beijos variavam no mesmo sentido e na mesma proporção daquilo que ele lhe pagava, o coração do jovem brasileiro achava‑se livre. E as portuguesas são bonitas.

            Já sozinho no gabinete, Herédia telefonou ao amigo Aniceto Sombras, convertido em «Zé Pedro» por via da participação de ambos em júris de provas académicas e noutros afazeres de que as mãos tinham de sair lavadas. Sim, Zé Pedro já falara com o seu colega da Faculdade de Direito do Algarve, prometera‑lhe pareceres jurídicos e um posto na cúpula de uma fundação. Pôde assegurar a Herédia que ele estava feito, devidamente adestrado para a reunião que teria lugar daí a uma semana. Pleno de generosidade, Zé Pedro tivera ainda o desvelo de indicar àquele colega os argumentos a utilizar na reunião, ponto importante na medida em que nela se exigia votação nominal justificada.

            Chegara o momento de conversar com o Lemos, professor auxiliar. Herédia perguntou-lhe como ia a vida, protestou a estima que tinha por ele e a vontade de o ajudar na carreira. Garantiu-lhe afago de médio e longo prazo, a saber, a passagem a professor associado e docilidade nas provas de agregação. Os filhos do Lemos gostavam de motas e de videojogos, um pai tem de pensar na prole.

            — Sim, conte comigo! Declararei que, se a Sofia mantiver a versão atual da tese, votarei contra a aprovação.

            — Não esquecerei o seu gesto, Lemos. Veja se, no seu campo de estudo, arranja dois ou três argumentos a usar no sentido do chumbo. Eu e mais dois membros do júri lá estaremos para o apoiar, para sufragar as suas críticas.

            O Lemos era amigo da candidata, já lhe mostrara, inclusive, o seu vinhedo nas cercanias de Borba, no qual tinha orgulho e em que sustentava o desagrado por viagens: «Se podemos ver o que é nosso, porquê ver o que é dos outros?» Porém, na sua mente, ressoava a sentença de um cineasta belga: «A vida vale cada vez menos, tem um peso cada vez mais relativo.» Ora, se o merecimento da vida vem decrescendo, o mesmo vem sucedendo, por maioria de razão, à amizade — também ela vale cada vez menos. Isto é cristalino, o argumento a maiori ad minus é elementar para um jurista, sobretudo quando na questão se enliçam motas e videojogos. De resto, por que carga de água havia Sofia pedido a Evaristo Nabais para orientar a sua dissertação? Evaristo cometera o crime de ter discordâncias científicas relativamente a Herédia, de ousar opiniões diversas em matérias de direito (além disso, denunciava as veniagas de Herédia, Evaristo não era homem apenas até ao joelho). E por que carga de autonomia não ia Sofia ao gabinete de Herédia a fim de o cumprimentar, de lhe escovar o pelo? Eis o problema. Sofia era independente, senhora de si. Um colega nortenho, machista e provinciano, dizia que Sofia «tinha toco».

            Herédia não cabia em si de contente. A matemática não engana: estava garantido o sentido de voto de quatro dos sete membros do júri. Embora o representante do reitor estivesse entre os três jurados que ele não aplainava, isso era, no que às contas diz respeito, irrelevante.

            Encontrou Sofia no bar da faculdade. Usando simpatia extremada, perguntou‑lhe como iam os seus trabalhos, disse-lhe que tinha muito gosto em vê‑la, com ela trocou palavras de circunstância. No curso da tarde, seguia‑se um encontro com o Seia.

            O Seia. O «bufo Seia»! Era o mais assíduo áulico de Herédia. Mantinha‑o informado acerca da mais ligeira brisa que soprasse na academia, se necessário servia‑lhe de motorista. Escrevia‑lhe pareceres, manuais e artigos científicos — um escritor‑fantasma eficaz. Vivia condenado a fazer carreira em jeito de sanduíche: um pedaço para ele, dois para o ilustre Gomes Herédia. E a reverência distinguia igualmente a prole do mestre. No passado, porquanto o filho deste tinha de estudar as matérias de outra disciplina, o Seia adiou a publicação das notas da prova escrita da cadeira que regia, assim dando à cria de Herédia mais tempo para depois preparar o exame oral dessa cadeira. Era homem inteligente e sabedor. Havia um par de anos, na parede do tribunal de uma cidade búlgara, vira estampado um dito do juiz italiano Paolo Borsellino: «Quem tem medo morre todos os dias, quem não tem medo morre uma só vez.» Essas palavras causaram‑lhe um aperto no estômago, sentia‑se infeliz, morria todos os dias. Mas não pretendia mudar de vida. Era difícil aceder à magistratura, havia mais advogados do que clientes, o notariado não o atraía.

            Ordens dadas ao Seia, Herédia recolheu a casa. Jantou com o filho, Vítor, e com a filha, Margarida. As aspirações desta confrontavam Herédia com a impossibilidade de ser um pai completo. Margarida gostaria de se tornar funcionária da União Europeia, em Bruxelas. Apreciava o cosmopolitismo e o chocolate, detestava o proselitismo e os mexericos de paróquia. Infelizmente, o Serviço Europeu de Seleção de Pessoal recorria a testes com computadores, feitos e corrigidos de modo anonimizado, e Herédia não podia dar um jeito, não podia amestrar os computadores.

            O resto da semana correu sem alvoroço. Na reunião do Conselho Científico, os respetivos membros debateram assuntos importantes, mas o ambiente fora previamente liofilizado. Antes das eleições relativas a tal órgão, Herédia e alguns dos seus pares haviam concertado resultados e, desse jeito, lograram a escolha daqueles que lhes faziam a corte, entre os quais o Seia. Assim se garantira tudo o que viesse a ser necessário, mormente para a descendência do professorado daquela escola.

            No que toca a Daniel, a semana trouxe‑lhe os enleios de Marta, lisboeta de visita a Évora. Tornaram‑se leones enamorados, como os que ele tinha visto no Vale Encantado. Deus tira com uma mão e dá com a outra. O claustro universitário trazia‑o murcho, Marta devolveu‑lhe o viço. Só podia ter sido el dedo de Dios a pôr esta mulher no seu caminho.

            Segunda-feira, dia da reunião do júri de provas de doutoramento de Sofia. Herédia andava excitado, a matemática não engana, é uma ciência exata. As chaminés de ressalto, a Praça do Giraldo, a mescla de estilos da catedral, a luz, tudo parecia mais bonito.

            Um telefonema. A vida não se acomoda às previsões, não se deixa represar pela matemática, não se aferra a números. Grave acidente de viação. Aniceto Sombras e o seu colega do Algarve morreram. «Tenho de agir depressa, os pêsames ficam para mais tarde. Não perdi somente o Zé Pedro e o seu industriado colega. Faltar‑me‑á também a infinita capacidade que o Zé Pedro tinha para lapidar pessoas, para as fazer. Isto tem consequências neste júri, terá noutros também, in futuro. Demais, a Sofia é filha do vento e, sozinho ou apenas com o Lemos, não estou para lidar com novos Geraldos sem Pavor.»

            Contactou o Lemos, desfez a combinação.

            A reunião do júri das provas de doutoramento de Sofia decorreu uns meses mais tarde. Fértil em elogios à tese, nela se marcou a data da defesa pública da dissertação. Herédia foi o mais efusivo, desdobrou‑se em encómios à candidata e ao seu trabalho. Acabada a reunião, teve o cuidado de telefonar a Sofia para lhe dar uma palavra de tranquilidade.

            Superou bem o luto, soube adaptar‑se à ausência do Zé Pedro. Os seus labores prosseguiram sem sobressalto. Publicou muito, já Eça de Queirós escrevera que, dos grandes homens, até as contas do alfaiate se publicam. As quelhas da infelicidade do Seia continuaram a ser orientadas pelas suas engenharias.

            Numa aula, o catedrático noticiou que o tinham convidado a redigir um projeto de diploma legislativo. Daniel não o ouviu, agora estudava em Lisboa. Na capital, tinha mulher, cama, mesa e arejo. E o narciso não estava entre as flores que mais apreciava.

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Paulo Pego
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