terça-feira, 07 fevereiro 2023

A lama dos dias

Fev. 02, 2023 Hits:279 Crónicas

DIGNIFICAR A AUTORIDADE

Fev. 01, 2023 Hits:130 Crónicas

Homoousios

Jan. 31, 2023 Hits:160 Crónicas

O Escorpião Marcelo

Jan. 31, 2023 Hits:107 Opinião

Insuspeito assassino

Jan. 27, 2023 Hits:205 Crónicas

Isto não é um país É …

Jan. 20, 2023 Hits:488 Opinião

A Importância da Educaç…

Jan. 19, 2023 Hits:1879 Crónicas

Epistocracia - O óptimo …

Jan. 15, 2023 Hits:1020 Opinião

No Palácio do Raio

Jan. 15, 2023 Hits:438 Apontamentos

Em Monsanto e em Penha Garcia





A sua generosidade permite a publicação diária de notícias, artigos de opinião, crónicas e informação do interesse das comunidades portuguesas.


           1. Por lá terem decorrido filmagens da prequela de A guerra dos tronos e em vista dos pregões «A aldeia mais portuguesa de Portugal» e «Aldeia Histórica», temia que Monsanto estivesse inçada de turistas. Mas não. Quando lá fui, a matéria lítica sobrepujava, poucos visitantes calcorreavam as suas ruelas, não dei por muita treta que a eles fosse especificamente endereçada.

            Almocei na Adega Típica «O Cruzeiro». Em 2010, estanciei duas semanas em Monsanto e dela guardava boas memórias, já no que respeita à culinária, já no que toca aos tratos. Espreitei o rol de cinco pratos de carne, dois de peixe e um vegetariano, perguntei por pratos típicos da casa e de Monsanto. Judite, a senhora que me serviu, indicou, como especialidade do restaurante, as bochechas de porco preto estufadas e, como bandeira do estabelecimento e da aldeia, o arroz de galo. Adiantou que este era cozinhado, aldemenos, no tempo da matança do porco. Fartas do suídeo, as pessoas comiam arroz de galo. Tal foi a minha escolha, não me arrependi. O prazer continuou com a sobremesa, uma torta de laranja cujo gosto se prolongava na boca. Bebi um vinho tinto fresco e com aroma de frutos vermelhos: Quinta dos Termos, de 2018. Apreciei a refeição e o serviço, acho imperdoável não haver rede wi‑fi.

            Diante de mim, almoçaram membros de uma família de Lisboa que recebia um primo vindo de longe. Dirigindo‑se sobretudo a esse parente, o senhor mais velho gabava‑se, falava das suas proezas na Guerra Colonial. A nora ouvia‑o com um tédio inenarrável, decerto já conhecia as estórias em pauta. Condoí‑me do seu fastio. Talvez a maior parte dos seus versos domésticos rime com desfortuna e com toxicidade e isso torna ainda mais pesado o frete aceite em nome do sangue. Conjeturo‑o com amargura interior, mesmo com aspereza, pois recordo moléstias e escabrosidades de cariz familiar que, quando a minha mãe estava viva e pelo amor que lhe tinha, tolerei e calei.

            Com igrejas e capelas fechadas, simplesmente deambulei por Monsanto. Agradou‑me o jogo das casas com as rochas, detive‑me defronte dos conjuntos bizarros que dele resultaram. Várias vezes contemplei a paisagem circundante, ela parecia não ter fim. Em virtude de os templos se encontrarem encerrados, perdi vontades de particularização. Ainda assim, a minha retentiva guardou a imponência do castelo, a elegância da Torre de Lucano e a distinção do Solar do Marquês da Graciosa.

            Na esplanada do café O Baluarte, desfiei, junto de dois monsantinos, causas do meu encanto pelo concelho de Idanha‑a‑Nova. Escutaram o meu relato e contrapontearam com o que os preocupa e agora também a mim me inquieta, pelos factos e não pela nacionalidade dos agentes. Brasileiros e americanos compram larga fatia dos terrenos de regadio e neles fazem plantar amendoeiras e nogueiras, assim roubando espaço para cultivar o que alimenta o povo, a saber, trigo, milho e centeio. Deste jeito, na «aldeia mais portuguesa de Portugal», topei com uma triste imagem do meu país, um retrato que se multiplica e no qual vejo o privilégio do investidor estrangeiro e a piora das condições de vida do íncola.

           2. A aldeia de Penha Garcia estende‑se sobre uma encosta cujo viso é dominado por penedia onde sobrenadam as muralhas de um castelo.

            Cheguei defesso e apenas me movia a vontade de admirar, na Igreja Matriz, a escultura de pedra de Ançã que representa Nossa Senhora do Leite. O templo estava fechado, só abre para a missa de domingo. Prudência Júlia, uma idosa da terra com quem entabulei conversa, dispôs‑se a mostrar‑me uma réplica dessa imagem que se encontra num nicho, noutro lugar da povoação. Segui‑a e atentei no exemplar de imitação, a que não achei graça nenhuma. Depois, vimos alguns dos icnofósseis — no linguajar local, «cobras pintadas» — que amplificaram a notoriedade de Penha Garcia.

            Acabámos por ficar na charla. De mim, pouco mais quis saber além da proveniência e do estado civil. Penha Garcia era para ela motivo de um orgulho que radicava na história e no caráter rijo das suas gentes, mas também naquilo que o citadino consideraria anódino: a visita de Catarina Furtado à terra. Ufanava‑se de ser a pessoa mais esperta da sua família e de ter retido tudo o que aprendera na escola.

            Sem moralismos, ciente de que a minha interlocutora nascera no tempo escuro do salazarismo e no lado esquerdo do mundo, empenhei‑me em combater a sua bossa fácil para o preconceito — «As brasileiras comem os homens todos», dizia — e o juízo primário segundo o qual os médicos só pensam em dinheiro. Mas a verdade é que em mim se presentificou a ingratidão e a falta de reconhecimento que Fernando Namora imputou a algumas criaturas da província de alma pequena.

Luso.eu - Jornal das comunidades
Paulo Pego
Author: Paulo PegoEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Para ver mais textos, por favor clique no nome do autor
Lista dos seus últimos textos

Adicione o seu comentário aqui!

luso.eu Jornal Comunidades

Não perca as promoções e novidades que reservamos para nossos fiéis assinantes.
O seu endereço de email é apenas utilizado para lhe enviar a nossa newsletter e informações sobre as nossas actividades. Você pode usar o link de cancelamento integrado em cada um de nossos e-mails a qualquer momento.

TEMOS NO SITE

Temos 1060  pessoas que estão a ver esta página no momento, e 0 membros em linha

A SUA PUBLICIDADE AQUI?

EVENTOS ESTE MÊS

Seg. Ter. Qua. Qui. Sex. Sáb. Dom.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28

News Fotografia