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Em Palanga

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            Num mês de julho, com a Jūratė, feriei alguns dias em Palanga, estância balnear na costa lituana. Tanto quanto percebi, a esmagadora maioria de turistas vinha da Letónia, da Estónia, da Polónia, da Bielorrússia, da Rússia e de outras partes da Lituânia. Os automóveis com matrícula bielorrussa eram, todos eles, verdadeiros espadas.

            As brochuras alusivas a Palanga decantam a extensa praia de areia fina e os pores do sol cinematográficos vistos do molhe que se adentra na água. O areal, deveras agradável, estava limpo e a luz de certos momentos tingia‑o de magnífica cor fulva. À babugem do mar chão, nada conspurcava a bonita paleta de azuis. Várias vezes contemplámos o horizonte tomado de arrebóis impressionantes, mas desenganem‑se os que intuem romantismo, pois o molhe fervilhava de gente e de vozeio. Para mim, isto presentificou Oia, em Santorini, e a Albufera, perto de Valência, locais onde, com prazer maculado pela chusma, gozei as soberbas cores quentes do ocaso. A talho de foice, acrescento: a observação de pôr do sol que mais apreciei teve lugar no Cabo Sunião, a sós ao pé do templo de Poseidon — nuvens cinzentas rendavam, de forma delicada, o laranja do céu.

            Ao menos em época alta, não há trânsito de carros na rua Basanavičiaus, a que atrai mais turistas. Enquanto por lá flanávamos, a vida golfava de todo o lado — havia um vaivém infindável de povo, a miudagem retouçava nas áreas de diversão infantil, a malta afluía a cafés, restaurantes e barracões de madeira em que se vendiam gelados e outras guloseimas. À sombra de guarda‑sóis, bonecreiras e vendedores com carrilhanas ou com mesas desmontáveis cobertas de bastões de selfie, brinquedos baratos, estampas, caramelos e sabonetes. Fizemos incursão pelas savanas de África mercê das senhoras que trajavam roupa zebrada e dos rapazes que vestiam t‑shirts nas quais estavam impressos leões. Vimos numerosos casais jovens com as suas vergônteas — imagem comum, na Lituânia —, e, entre as mulheres que platinaram o cabelo, três ou quatro a quem alguém deveria dizer que less is more.

            Na rua Basanavičiaus, nos movimentos de ida e volta de todas aquelas criaturas, nos seus esgares e trejeitos, adivinhei conversas e juízos perentórios sobre a vida alheia. Recordei férias e terras em que a convivência estival assentava no mexerico. Lembrei‑me da Figueira da Foz, para aonde se transfere, no mês de agosto, grande parte da má‑língua e dos boquirrotos de Coimbra, sujeitos com quem eu não conseguia arranchar. E senti‑me fortunado por, exceção feita à Jūratė, em Palanga ninguém me conhecer.

            A fadiga, o calor e a luz dura convidaram‑nos à preguiça e à moleza, deixámos o tempo escorrer devagar. Os vatéis de serviço prepararam refeições fartas, tornaram os nossos dias ainda mais emolientes. Provámos o bom peixe do restaurante Žuvinė e diversas iguarias lituanas: šaltibarščiai (sopa fria à base de beterraba) e, numa ou noutra das suas variantes, cepelinai (bolas de batata recheadas com carne, queijo ou cogumelos) e koldūnai (pequenos pastéis de massa que têm no seu interior carne, queijo, frutos silvestres ou mesmo cogumelos).

            Conquanto dados ao ripanço, não pusemos a curiosidade em pousio. As fotografias a preto e branco expostas na casa de madeira em que morou Jonas Šliūpas, um prócere, transportaram‑nos à Lituânia de antanho. Fomos ao museu do Âmbar, digno de visita por causa do «ouro do Báltico» e pelas composições de interiores que integram mobiliário e adornos em tempos idos pertencentes a famílias nobres. Passámos na igreja da Assunção da Virgem Maria, que, no verticalismo, nos ornatos e nos elementos de construção (rosáceas, vitrais, abóbadas de nervuras, arcos ogivais, arcobotantes…), faz reviver o Gótico. O tijolo abunda e, em conjunto com a parede branca do interior da igreja, produz efeito agradável à vista. Subimos ao topo de um outeiro que foi espaço de culto pagão e no qual, segundo a lenda, Birutė e outras sacerdotisas velaram o fogo sagrado. Kęstutis raptou Birutė e forçou‑a a casar com ele; depois da sua morte, Birutė voltou ao pequeno monte, aí viveu e foi sepultada. Birutė é venerada como se fosse uma santa, bem o notámos no fervor dos circunstantes. Nos giros por Palanga, demorámo‑nos defronte das casas de madeira cheias de charme, muitas delas circundadas por árvores, relva, tabuinhas a condizer ou sebes de decote caprichado. Os lituanos nem sempre deram mostras de bom gosto quando abriram cafés, restaurantes ou outros estabelecimentos mercantis nalgumas dessas casas (que tinham sido o seu pied‑à‑terre): letreiros, toldos, guarda‑sóis, mesas, cadeiras e marquises decerto geram negócio e lucro, no entanto corrompem o sentido estético do lugar. Percebi‑o, em especial, na rua Basanavičiaus.

            Em Palanga e noutras zonas da Lituânia, deparámos com almas que só sabem trabalhar de estampa, obedecem a um preceito e a ele ficam presas. Isto toca novos e velhos e acompanha modo de ser que não é afrontoso, mas é áspero. No hotel em que nos alojámos, havia funcionários assim, o seu jeito inflexível espraiava‑se para além daquilo que o cumprimento de ordens exigia. Conto um episódio que de certa forma o revela.

            Embora já houvesse dois toalhões de banho à nossa disposição, pedi mais dois. De cenho carregado, a rececionista — teria uns 25 anos — resmungou, mas, em virtude da minha insistência cortês, disse que no‑los traria ao quarto. E assim foi. Abri‑lhe a porta, saudei‑a e estendi os braços para receber os toalhões. Fez carranca e perguntou‑me:

            — Não têm aí toalhas de banho?

            — Temos. Ainda assim, precisamos de mais duas.

            — Porquê?

            Cansado da renitência da jovem, decidi folgar:

            — Faremos amor toda a noite, suaremos muito e tomaremos vários duches.

            Arregalou os olhos, o seu rosto esquelético perdeu severidade. Continuei com o desgarre:

            — Faremos sexo anal, vaginal e oral, teremos orgasmos, transpiraremos…

            Corada e com inflexão de voz em que se percebia desconcerto, atalhou:

            — OK, OK!

            Entregou‑me as toalhas e desapareceu de afogadilho. Não tive, pois, de lançar outro dardo que o meu espírito reinadio havia aprontado: convidá‑la para um ménage à trois. No sorriso e no meneio de cabeça da minha companheira, no rubor da sua face, um juízo: definitivamente, este tipo não cabe nas normas.

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

Textos deste autor:

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