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terça-feira, 27 julho 2021

A Peste Moderna



Decorria o ano de 1947, a Europa sarava ainda das recentes feridas infligidas pela Segunda Grande Guerra, quando a Librairie Gallimard trouxe à luz do dia “La Peste”, uma das principais obras de Albert Camus, que, juntamente com “L’Étranger” e outros ensaios publicados durante as décadas de 40 e 50, valeram ao autor o Prémio Nobel da Literatura dez anos depois, elevando-o a um dos melhores escritores do século passado.

Mais de sete décadas após este momento, vivemos um cenário pandémico em tudo idêntico àquele que a pequena cidade argelina de Oran enfrenta nesta ficção: o aparecimento inesperado de uma doença, a impotência perante o desenrolar de acontecimentos, a angústia provocada pela desconexão física com o mundo exterior. Porém, tal como a tragédia que recaiu sobre Oran, esta realidade terá naturalmente um fim e, se a esse fim podermos comparar a chegada de um navio a bom porto, então podemos igualmente dizer que esse porto já se encontra à vista.

Convém, contudo, assinalar de uma outra peste cuja origem remonta aos tempos de Camus e para a qual, infelizmente, ainda não se antevê um final. Algo que, apesar de tão visível, passa despercebido aos olhos da maioria. E é oportuno associar a obra do franco-argelino ao flagelo pelas semelhanças que podemos traçar entre este e algumas caraterísticas da epidemia retratada, particularmente o menosprezo inicial por um problema que culminou em resultados calamitosos.

Em 1918, a Novemberrevolution, a queda do II Reich e o fim da Primeira Guerra Mundial criaram um contexto de relativa estabilidade no panorama internacional, que abriu caminho para os “Loucos Anos 20”, uma fase que, entre outras caraterísticas, foi fortemente marcada pelo desenvolvimento de diversos setores económicos, pela intensificação da produção em massa e por um caráter consumista no mundo ocidental. Várias indústrias cavalgaram nesta onda de entusiamo, entre as quais a química, que proporcionou à classe média europeia e norte-americana uma gama de produtos que até esse momento se encontrava inacessível. Foi nesta vasta oferta que vimos pela primeira vez o nosso problema, o qual, posteriormente, se alastrou, tornando-se um elemento presente no quotidiano de praticamente todas as sociedades que já entraram em contato com a realidade industrial: o plástico.

Leve, maleável, resistente e protetor, este material deu resposta a inúmeras necessidades que a população do século XX ansiava verem resolvidas e ainda hoje aparenta ser uma componente indispensável do nosso bem-estar. Talvez seja esta dependência o fator que justifica o porquê de desconhecermos ou escolhermos ignorar os efeitos que o plástico tem no ambiente e, a médio-longo prazo, os prejuízos que nos poderá causar. Mas analisemos os factos.

Todos os anos produzimos mais de 300 milhões de toneladas de plástico. Destas, metade é descartável e a esmagadora maioria acaba por não ser devidamente reciclada, algo que afeta tanto nações com sistemas de tratamento de resíduos pouco desenvolvidos, como outras que estão na vanguarda destes mesmos sistemas. A incapacidade em lidar com a constante afluência destes detritos significa que muitos acabam por ser depositados fora dos locais adequados. Os oceanos, por exemplo, albergam pelo menos 269 mil toneladas, às quais são acrescentadas outras 8 mil anualmente.

Neste momento várias mentes pintam a imagem chocante de uma foca envolta numa rede de pesca ou da luta pela vida de uma tartaruga frente a um saco de plástico. É efetivamente um problema com que a biodiversidade se depara e alerta-nos para o perigo deste material, mas a verdadeira ameaça reside nos confrontos que não conseguimos percecionar a olho nu. É no meio ambiente (e no meio marinho em particular) que a leveza, maleabilidade e resistência, que nos são tão convenientes, encontram as condições necessárias para se revelarem extremamente perigosas.

À deriva na coluna de água de todos os oceanos, juntamente com milhões de garrafas, palhinhas e outros objetos de plástico, encontra-se uma infinidade de partículas microscópicas da mesma natureza. Resultam da degradação de objetos de maior porte em pequenas partes que, todavia, não são eliminadas. As suas minúsculas dimensões tornam-nas capazes de penetrar em ambientes nos quais os seus homólogos, por força de barreiras físicas que não conseguem ultrapassar, não estão presentes, e é esta propriedade que facilita a sua assimilação acidental e torna a presença de microplásticos nos organismos marinhos uma espécie de lei introduzida à força no reino animal.

O que à primeira vista não aparenta ser um problema capital devido à baixa toxicidade do microplástico, evidencia toda uma nova escala de gravidade quando consideramos que estas partículas servem como meio de transporte para outras substâncias como metais pesados que, quando acumuladas, conduzem a danos severos e, por vezes, fatais. Ademais, a capacidade de transitarem através da cadeia alimentar significa que podemos encontrar plástico tanto nos pitorescos golfinhos que atravessam o Sado, como nas sardinhas e outras espécies pescadas em alto mar. Se for nossa intenção ver este tema de uma forma puramente antropocêntrica, ignorando já os riscos que esta representa tanto para o ambiente como para o nosso mercado alimentar, é pertinente referir que em 2021 se observaram pela primeira vez evidências da presença de microplástico na placenta humana.

A pergunta que devemos colocar neste momento não é se devemos acabar com a dependência deste material, mas quando e como vamos transitar para um modelo social e económico livre desta tendência autodestrutiva. É verdade que as instituições europeias, assim como as nacionais, têm levado a cabo esforços para limitar a utilização de plásticos descartáveis. Mas o facto de um grande número de empresas alicerçar o seu negócio no consumo destes polímeros, remetendo para entidades mais ou menos abstratas a procura por uma alternativa viável (neste momento inexistente), leva a crer que a solução que tencionamos encontrar reside para além do alcance do sistema atual.

Quando no início da década de 40 Albert Camus começou a redigir uma das obras que o lançariam para a esfera da literatura mundial, provavelmente nunca terá imaginado que o termo com que cunhou a doença de Oran poderia um dia ser atribuído a algo de tão inofensiva aparência. Mas com que termo deveríamos então apelidar um elemento de tamanha nocividade e de tal forma disseminado? Se a catástrofe que atingiu a cidade argelina foi puramente ficcional, a existência desta, que todos os dias alimentamos e que brevemente recaiará sobre nós, é inegável. E não nos podemos dar ao luxo de, como no romance, nos deixarmos levar pelo caráter absurdista da situação na expetativa de que esta tragédia desapareça de forma espontânea. Resta-nos obter a resposta para a última questão: Colocaremos nós um ponto final nesta peste?

Luso.eu - Jornal das comunidades
Ricardo Dantas
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