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Dias mais longos e prevenção a triplicar: a rotina de uma enfermeira portuguesa na Bélgica

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Depois de visitar cerca de duas dezenas de pacientes, a caminho de casa, Tânia de Jesus, uma enfermeira domiciliar portuguesa, tem já o seu ritual bem definido: deixa os sapatos na entrada, coloca as roupas num saco de plástico e segue diretamente para o duche. Esta é a sua rotina há já um mês. As medidas de precaução servem para minimizar o risco de propagação do coronavírus.

Segundo as autoridades belgas, até ao dia 28 de março, existem 9.134 casos confirmados de infeção pelo coronavírus e o número de mortes no país subiu para 353 pessoas. Um pouco a exemplo do que acontece por toda a Europa, os serviços de saúde belgas encontram-se sob pressão. Neste momento, contabilizam-se 3717 doentes internados – 789 em cuidados intensivos e 579 que respiram com auxílio de ventiladores. A prioridade dos serviços de saúde é tratar dos pacientes infetados pelo COVID-19. Outros doentes, que normalmente ficariam ao cuidado do hospital, estão a ser enviados para casa, fazendo com que os cerca de 32 mil enfermeiros domiciliares do país multipliquem os seus esforços. 

A chegada do vírus obrigou a uma mudança na rotina de quem trabalha na área da saúde. “Os dias são agora mais longos e as medidas de prevenção triplicaram”, refere Tânia de Jesus. A jovem, natural de Santa Comba Dão (Viseu), encontra-se em Bruxelas desde 2009 e trabalha numa sociedade de cuidados de enfermagem ao domicílio. 

Tânia de Jesus começa o seu dia às 6:30 horas e só termina por volta das 22:00 horas. A maioria das pessoas de quem cuida são idosas, portanto mais vulneráveis aos efeitos do coronavírus. Por isso, todos os cuidados são poucos. “Neste momento, estamos constantemente a desinfetar as mãos. É quase 'non-stop'. Cada vez que abrimos uma porta ou tocamos na superfície de uma mesa, por exemplo, temos que desinfetar as mãos. Antes não estava na nossa rotina, não com esta frequência”, explica. A jovem portuguesa revela ainda que antigamente usava a mesma roupa de trabalho durante todo o dia. Hoje tem de mudar entre duas a três vezes: “vou a casa, tomo um duche, troco de roupa e volto ao trabalho”. A preocupação com os pacientes está acima de tudo. 

Devido à alta exposição ao coronavírus e à falta de proteção adequada, os profissionais de saúde são responsáveis por quatro por cento dos casos confirmados do coronavírus na Bélgica, disse um porta-voz do Ministério da Saúde na passada terça-feira, 23 de março.

Gel desinfetante, máscaras e luvas são os artigos que se encontram em falta. Esta semana, a jovem portuguesa percorreu 37 lojas à procura de luvas.  “Felizmente encontrei uma loja que ainda tinhas luvas e algumas combinações para a proteção das nossas roupas”, desabafou.

A medidas do governo belga

A Bélgica encontra-se em isolamento geral desde o dia 18 de março. Ontem, o Conselho de Segurança Nacional belga decidiu prolongar as medidas preventivas de combate à propagação do coronavírus até ao dia 19 de abril. Tal como até agora, durante o isolamento geral, será permitido sair apenas em caso de emergência ou para ir ao supermercado, farmácia, estações de correio, bancos ou estações de serviço de combustíveis. O exercício físico em espaços abertos continua a ser permitido, mas apenas tendo como companhia uma pessoa que viva na mesma casa. No exterior, é recomendada uma distância de segurança de 1,5 metros em relação a outras pessoas.

Tânia de Jesus aplaude as medidas do governo belga, mas critica a decisão tardia em relação ao isolamento geral. “Deveria ter sido mais cedo. Teria sido possível evitar muitos dos casos.” Na opinião da enfermeira portuguesa, a Bélgica não estava preparada para esta pandemia e levanta as suas críticas à falta de um discurso unificado da classe política belga, referindo-se às diferentes visões defendidas pelos representantes da zona de Flandres e da Valónia.

Sobre o futuro, não tem certezas. “Ainda não atingimos o pico do surto na Bélgica. O número de mortes e de casos positivos ainda vão aumentar”. A enfermeira espera uma maior consciencialização da parte de todos para o problema. “Faço 200 a 250 quilómetros de carro todos os dias entre pacientes e nunca vi tanta gente a correr na rua como agora”. Ontem, a Primeira-ministra belga, Sophie Wilmès, defendeu que as medidas de isolamento social serão agora mais rigorosas para quem não cumprir com as regras.

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Rúben Castro
Jornalista da luso.eu CC46 A
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Nascido em 1990, no Funchal, estudou Ciências da Cultura na Universidade da Madeira e Jornalismo na FCSH/Universidade Nova de Lisboa. Neste momento vive em Bruxelas, onde colabora com vários órgãos de comunicação social. É um dos 55 Embaixadores da Juventude da ONE na Bélgica, uma ONG focada no combate à pobreza extrema e às desigualdades.

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