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Em Riga (II)

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         Adoro mulheres. Alimento grande interesse pela sua sexualidade, o corpo delas atrai‑me sobremaneira, o imaginário feminino enfeitiça‑me. Devo‑lhes muito: visitas ao empíreo, conversas magníficas, cumplicidades especiais, amparo, o treino do saber emocional. E retribuo‑lhes isso: na vida, premo vários botões, mas nenhum me merece os empenhos que ponho no botão do deleite fêmeo. A gozar um amor que me dá paz, segurança e lascívia, guardo a carne para a minha mais‑que‑tudo e renunciei a safras de libertino. Ainda assim, gosto de ver caras bonitas, seios polpudos e proporcionados, curvas voluptuosas, saracoteios sensuais, unhas dos pés pintadas e arranjadas. E quase salivo em face de mamilos cuja forma possa discernir sob a blusa.

         Nas férias estivais, cheguei a Riga quatro dias antes da minha companheira. No programa, levava Arte Nova, centro histórico, herança judaica, o edifício da biblioteca nacional, um salto a Ķīpsala, cerveja e boa manja, o exame de modos de viver. E fui‑me conformando com o plano. Sucede que a fartura de letãs lindas e esculturais desinquietou‑me. As ruas eram passarelas, as lojas cativavam‑me graças às funcionárias e às freguesas, não pelo sortido. De modo gradual, instalou‑se em mim um propósito de sedução inocente, de galantear uma daquelas beldades. Ao mesmo tempo, queria apurar se, fora do laço que mantenho com a Jurate, permanecia válido o meu cartão de conquistador.

         Procrastinei a satisfação de tais anseios e só ao sair do hotel para jantar na véspera da vinda da Ju decidi que, se houvesse ensejo, criaria durante o repasto uma atmosfera do género cinq à sept com uma mulher bonita (certo, bem entendido, de que nunca me desfraldaria em arrojos suplementares, que, aliás, não desejava). Fui ao izakaya The Catch e logo recebi um golpe nas minhas pretensões: por força das reservas, tive de me sentar ao balcão. Cinco minutos depois, reganhei esperanças. Tomou lugar junto a mim uma estupenda obra da natureza (e, quiçá, dos cirurgiões plásticos), russófona, de pele clara, cabelo cor de azeviche, olhos escuros com brilho diamantino, nariz fino e arrebitado. Vestia roupa negra de talhe impecável, usava pulseira e relógio auricolores, bolsa Louis Vuitton e — pormenor que me desagradou — manuseava em simultâneo dois telefones inteligentes. Os acessórios contradiziam a beleza mística oriunda do seu rosto. Senti o latejo das veias e olhei para ela diversas vezes em busca do mais pequeno sinal que me permitisse encetar conversa. Ignorou‑me. Quando um pedacito de comida lhe enodoou a roupa, impostei a voz e disse‑lhe que não se preocupasse, que assim iniciava um novo estilo de moda. Nem um sorriso esboçou. Antes da sobremesa, já a indiferença me anestesiara.

         Depois da refeição, voltei para o hotel e fiz o que em quaisquer circunstâncias teria feito: cavaquear com a Jurate. Ela parece ser o meu destino e também a ventura de cada dia.

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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