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Em Bruxelas (V)

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            A seguir às férias, as absurdezas da vida na Bélgica cedo me chibataram a paciência.

            As peúgas vieram desirmanadas da lavandaria. No supermercado, topei iogurtes cujo prazo de validade terminara há três semanas. Às 20h30, bati com o nariz na porta da farmácia de serviço que deveria estar aberta até às 22 horas. Uma colega eslovaca contou‑me o problema sério que, por desleixo dos mecânicos, o seu carro teve mal saiu da oficina onde estivera para revisão. Na pastelaria, as mãos sem luvas que recebiam dinheiro e davam o troco eram as mesmas que manuseavam pães e doces (e me faziam suspirar pela ASAE). Através da internet, soube que em Gentbrugge agentes da ordem deixaram, sobre o para‑brisas de carro fúnebre parqueado defronte de igreja na qual decorriam exéquias, um aviso de multa correspondente a estacionamento que contravinha à lei.

            A acometida de várias moléstias e a demanda dos resultados de um exame levaram‑me ao médico, que só procurou os ditos no computador porquanto eu insisti no pedido. Além disso, depois de me franquear a entrada no seu gabinete, iniciou a consulta sem ter a cautela de fechar a respetiva porta (na saleta de espera contígua a esse compartimento estava outro paciente).

            A dianteira do trâmuei (linha 92) anunciava Héros, a praça aonde ia, como última paragem. Sem motivo visível, a composição acabou o percurso em Vanderkindere, longe de Héros. O condutor, de sorriso alvar e desígnio de vida represado na linha 92, não revelou causas nem pediu desculpa. O desrespeito rotineiro gera acédia e a maioria dos passageiros nem sequer protestou. Apanhei o trâmuei seguinte e, no destino, mastiguei a ira da minha quinta‑feira no restaurante grego Koyzina Authentica.

            Em junho de 2018, fiz uma formação que me habilita a ser mentor na instituição em que trabalho. Posteriormente, quando me coube um telémaco, o meu principal cuidado foi pô‑lo de atalaia e precatá-lo contra o surrealismo à espreita em todas as esquinas de Bruxelas. Falhos de alternativas, ele apresa‑nos. E interpõe entre mim e a cidade uma distância difícil de vencer.

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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