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Em Bruxelas (IV)

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       Janto amiúde no Tai Hon, pequeno restaurante taiwanês próximo da minha casa. A pitança é deliciosa, o serviço é bom e os preços são corretos, tríade cada vez mais difícil de encontrar em Bruxelas. Contextualizado, o nome do estabelecimento significa «casa da generosidade» e ali há realmente largueza nas doses e no trato. Devido à excessiva proximidade entre as mesas, não é poiso que eu recomende para conversas íntimas ou efeitos de sedução. A clientela abarca gente de várias fomes e inclui funcionários da União Europeia com fatos de bom corte, asiáticos de estirpes diversas, belgas que fora de propósito empregam a expressão «du coup», um avejão que lê policiais e me olha de esguelha, mulheres cobertas de estampados étnicos e uma elegante jovem‑jardim: traja vestido com flores e fenda que deixa ver uma tulipa tatuada na perna apetitosa. Nos meses de temperatura amena, a casa torna‑se family‑friendly: pais e avós ganham a esplanada e a miudagem cabriola e espoja‑se na rua pedonal.

       O dono, sereno e velho como o mundo, devota atenção cerimoniosa aos clientes: afora outras cortesias, deles se despede inclinando a cabeça e, às vezes, todo o busto. Quando não está a servir nem a fazer contas, fica algum tempo em pé, contemplativo, e entrelaça os dedos das mãos juntas sobre a cintura; o olhar doce que as pálpebras cheias autorizam espreguiça‑se por imensidões inverosímeis naquele espaço pequeno com construção em banda defronte. A figurinha oriental delgada e de aspeto frágil, os casacos e as calças alguns números acima do necessário, o cocuruto escalvado, o cabelo ondulado no occipício, os pelos que transbordam das narinas e a densa barba branca com cavidade semicircular — que, consoante o arranjo da semana, pode fugir para a forma elipsoidal — na zona da boca ajudam a compor aparência castiça. O pelame nasal dá azo ao pior do jantar, a recordação de um homem maçador e incomodativo, meu colega de trabalho em vida pregressa, de cujos ouvidos e nariz extravasavam muito visíveis tufos de pelos.  Esse é, dentre os sabores agridoces do Tai Hon, o mais amargo paladar.

       No local, faço uso do som de agradecimento que trouxe da China: xié xié. Descobri hoje que o provecto patrão, senhor de vereditos justos e sensatos no meu juízo até à data, é mais atrevido do que parece: alcunhou‑me de «xié xié». Não sei se é chacota, se me deva sentir alvo de troça. Exercitarei a bonomia e sempre prefiro tal epíteto a «tsingtao» e a «camarão» (sustentados, respetivamente, na marca da cerveja chinesa com que ali me regalo e no crustáceo envolto em molho de beringela e alho que lá costumo comer).

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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