Em Monschau

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            Um pedido da minha companheira levou‑me ao mercado de Natal de Monschau, pequena localidade situada no vale do rio Rur, entre colinas de uma região montanhosa abundante de árvores que o frio do início de dezembro empertigava. Para o encanto do seu centro histórico contribuem as ruas picturais, as fachadas estreitas, as casas «enxaimel» — algumas com paredes inclinadas —, os tetos de ardósia e o curso de água. Merece boa referência a imponente casa do século XVIII onde Johann Heinrich Scheibler — fabricante e comerciante de tecidos, e agente da subida reputação que os têxteis de Monschau lograram além‑fronteiras — fixou domicílio e local de negócio. O edifício acomoda uma magnífica escada de caracol em madeira de carvalho que serve três andares e exibe, esculpidas no guarda‑corpo, vinte e uma representações (com putti) de diversos estádios da produção de fazenda. Outrossim, durante o período de Natal vale a pena espreitar a casa Troistorff — igualmente construída no século XVIII para um empresário do setor têxtil —, pois as suas janelas recebem luzes e decoração que a convertem num calendário do Advento de grandes dimensões.

            Naquele sábado, Monschau estava tomada por hordas de visitantes.

            Abancámos para almoçar na sala de refeições de um hotel de gerência familiar, o Altstadt‑Post. Aqui, à semelhança do que sucede em muitos restaurantes rústicos da Alemanha, a decoração tem adições kitsch (que, como nessoutros estabelecimentos do mesmo género, não são desagradáveis e concorrem para compor a atmosfera própria do lugar): bruxas suspensas sobre o balcão, uma estatueta do Bucha e do Estica com jaquetas vermelhas, um grande mealheiro em forma de porco branco com manchas negras. Nomeado Pippi‑Schwein, o reco reclama 1 euro aos transeuntes que quiserem fazer uso do quarto de banho da casa. A ojeriza que eu vi no rosto da mulher hirsuta que nos atendeu acrescentava malquerença ao descontentamento que a vida já nele havia estampado.

            Ainda frescos, caminhámos, bebemos Glühwein, perlustrámos o sortido de stands  da feira natalícia, de pastelarias e do Wilhelm Maassen, famoso negócio de comércio e torrefação que, afora ter para venda café e outros produtos de cuja composição ele faz parte — cervejas, licores, chocolates —, celebra a cor: entre outras, vi uma máquina de café cor‑de‑rosa, uma vermelha, uma cor de açafrão, uma verde‑alface e uma azul‑bebé. Mas cedo nos fartámos de pessoas aos magotes defronte dos expositores, de ruas pejadas de gente em que nos movíamos como carneiros em rebanho, das filas de seres enrudecidos e de disputas para entrar nos sanitários, de comerciantes antipáticos e saturados de trabalho, de turistas e terranteses possuídos da bílis caraterística de paragens fustigadas pelo turismo de massa. No dia frio, recordei as marginais à pinha de estâncias balneares por onde andei e de que hoje fujo a sete pés. Ao cansaço físico juntou‑se o da veia estética. O mau gosto sobressaía e aferrava‑se aos costumeiros chifres de rena, aos gorros de tipo ushanka que somas e subtrações transformaram em cabeças de javali, às estranhas coberturas para a cabeça das quais pendiam compridas orelhas com luz. A repulsa cresceu ao ver, com alguns desses atavios, cinco homens, fungíveis na sua alarvice, que em grupo passeavam um cão. O canídeo nada tinha para além da pelagem e, no contraste com os burgessos, induzia adesão, transmitia empatia e dignidade que pareciam impossíveis naqueles brutamontes.

            No âmbito de uma disciplina do curso de fotografia que frequento, terei de fazer uma série de fotos de maneira a seguir modos de trabalhar representativos de um fotógrafo constante de lista apresentada pelo professor. Fã da fotografia humanista, elegi August Sander (também pensei em Lewis Hine, mas, felizmente, no mundo ocidental as crianças já não trabalham nas fábricas e os telhais dos Esteiros de Soeiro Pereira Gomes perderam‑se no tempo). Aluna do mesmo curso, a minha namorada optou por László Moholy‑Nagy. O acaso conduziu‑nos a Monschau quatro dias depois de informarmos o professor das nossas escolhas, que nos motivam e de que não nos arrependemos. Quiséssemos nós tomar Martin Parr como modelo, teríamos voltado a Monschau no fim de semana seguinte.

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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