Em Helsínquia, dois hotéis, uma capela e uma igreja

ID:N°/ Texto: 4058

Votos do utilizador: 5 / 5

Estrela ativaEstrela ativaEstrela ativaEstrela ativaEstrela ativa
 

      O GLO Hotel Art funciona num imóvel que recorda um castelo, construído em 1903 de acordo com os cânones do Romantismo Nacional. No presente, os blocos vizinhos e o quarteirão onde se situa fazem dele uma antigualha. Com teto em abóbada, frescos, vitrais e criaturas desusadas esculpidas em pedra, as suas áreas comuns são agradáveis. O quarto que nos atribuíram denota bom gosto, mas não é possível abrir as respetivas janelas nem controlar o ar condicionado. Perguntei por uma mudança, as outras opções não eram melhores. Ante o contratempo, mil vezes maldisse o hotel e os que o gerem.

      Para me redimir da detração e por sede de arquitetura atípica, sobretudo moderna, iniciámos a descoberta de Helsínquia na capela de Kamppi e daí seguimos para a igreja de Temppeliaukio.

      A capela de Kamppi, conhecida como «capela do silêncio», é um templo luterano no centro da cidade. Exibe forma curiosa que a aproxima do recipiente de uma chávena. Outrossim, nela se pode divisar um vaso ou, forçando a nota, um barco, é obra que provoca a imaginação. Não tem janelas e a madeira prepondera: estrutura exterior em abeto, paredes interiores de amieiro e mobiliário em freixo. No cimo, uma placa de gesso filtra a luz natural e contribui para o isolamento acústico, ponto de subida importância em zona de bulício. Se o molde surpreende, também o fator humano me espantou: durante os três quartos de hora em que lá estive, uma mulher de hábito segurou nas mãos o papel plastificado de que constam as proibições de fazer fotografias e de gravar vídeos. Ignoro a causa de tanto zelo, acho que bastaria pôr a dita folha em local visível.

      A igreja de Temppeliaukio, igualmente da confissão luterana, é um edifício circular que ocupa cavidade aberta no granito de uma praça. Parte do talhe da «igreja na rocha» acompanha os modos e feitios da pedra e aviva a ligação do espírito ao mundo natural. A cúpula tem topo revestido de chapas em cobre a partir de cuja borda inferior se estiram vigas de betão e claraboias pelas quais entra a luz do dia (da linha ondulada do granito depende o comprimento de umas e de outras). Lá dentro, chão cinza e estofos púrpura sobre bancos em madeira de bétula pintada de azul harmonizam‑se com os matizes da pedra. Aquando da edificação, os custos causaram celeuma e, através da palavra «BIAFRA», estudantes encrespados grafaram o seu protesto em várias paredes. Deste jeito contrapunham a fome nessa região africana ao dinheiro gasto para levantar a igreja. Com os anos, as receitas advindas dos concertos e do afluxo de visitantes, que pagam entrada, excederam tal despesa.

      Nos dois lugares santos resgatei‑me da maledicência. Foram o sítio certo para isso: mercê da sua estrutura, os finlandeses veem na igreja de Temppeliaukio um «bunker de proteção contra o Diabo». Ainda assim, não fosse este tecê‑las, quando voltei a Helsínquia, uma semana depois, hospedei‑me no Original Sokos Hotel Albert — nos quartos, pode‑se abrir a janela e desligar o ar condicionado.

      Abstraindo das culpas que carreguemos, os templos referidos são credores de visita, dão corpo a uma estética intemporal que os fará resistir à soberba de novos gostos. Eles e os retratos que me demorei a fazer — e que me franquearam a alma de uma dúzia de pessoas — foram as melhores novidades da viagem de duas semanas pela Finlândia. Um regalo para a vista. E também para o ouvido, se tivermos em conta os dizeres de Schelling e de Goethe que qualificam a arquitetura de «música petrificada» (erstarrte Musik)[1].

 [1] Cf., respetivamente, SCHELLING, Friedrich, Philosophie der Kunst, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, Darmstadt, 1976 [a 1.ª edição data de 1859], pp. 220 e 237, e ECKERMANN, Johann Peter, Gespräche mit Goethe in den letzen Jahren seines Lebens, e‑artnow, [s.l., mas impresso em Wroclaw], 2018 [a 1.ª edição, em vários volumes, data de 1836 e de 1848], p. 157.

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
Para ver mais textos, por favor clique no nome do autor.
 
Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

Textos deste autor:

RECOMENDADOS PARA SI

Eventos este Mês

Seg. Ter. Qua. Qui. Sex. Sáb. Dom.
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

Últimos Tweets

Mar de Sonhos – a emigração nos vapores transatlânticos https://t.co/XRwkArEQcR
Quando a fraqueza nos torna mais fortes https://t.co/XVjbXlZokJ
FALECEU A FADISTA TERESA TAROUCA https://t.co/yYAgFXhdlv
Follow Jornal das Comunidades on Twitter