No castelo de Neuschwanstein

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        Em razão de ter alguma coisa contra toda a gente — e não por se tornar mais comodista — notou Eva Strittmatter que estava a envelhecer: disse‑o no poema Arrefecimento (Abkühlung). Já eu, com o passar dos anos, outorgo maior valia ao conforto e penso duas vezes antes de me descomedir. Estivesse sozinho, não teria bojo para ir ao castelo de Neuschwanstein, a turba afugentar‑me‑ia. Por amor, lá fui.

            A obra dimana da vontade de Luís II da Baviera, rei de conto de fadas, monarca ensimesmado que preferia as artes aos assuntos de governo. Os custos da sua construção eriçaram a corte, mas hoje, com tanta afluência, o alcácer é um maná para as finanças públicas e assegura ganho pingue a hotéis e restaurantes.

            Seat Ateca num dos parques de estacionamento e bilhetes no bolso, apanhámos o autocarro que roda pela encosta acima e nos deixou perto do magno edifício. Um trilho liga a paragem a uma ponte, Marienbrücke — sítio perfeito para admirar o castelo e o verde circundante —, mas a fila que nele vimos dissuadiu‑nos de o tomar: nunca, em espaço natural, havia visto semelhante enfiada de povo, um espetáculo sem sentido, um rosário com as contas do turismo de massa.

            Já no castelo, tivemos de esperar cerca de quarenta minutos num pátio, pois só à hora inscrita no bilhete é possível aceder ao interior. Perto de nós, adolescentes histéricas, uma brasileira brega e um parzinho em barrigada de riso consecutiva ao que sucedia no ecrã do telefone inteligente. Pus‑me a conversar com o casal, o rapaz disse‑me que vivem em San Diego, que percorriam diversos países europeus e, a propósito do que na verdade me interessava, acrescentou que as gargalhadas tinham origem no filme Superbad. É sempre bom saber.

            À decoração, sumptuosa, servem de base lendas medievais que inspiraram Wagner, compositor que Luís II admirou e apoiou. Uma vez que o rei se tinha por intermediário sito entre Deus e a espécie humana, a sala do Trono evoca igreja e inclui apside para acolher o assento régio (sobrevinda a morte do soberano, nunca foi fabricado). A cúpula com estrelas, as pinturas, as colunas — que imitam pórfiro na galeria inferior, lápis‑lazúli na superior — e o piso de tesselas com uma representação da Terra, animais e plantas contribuem para criar o efeito majestático da sala. Aguardávamos, em especial, a passagem pelo quarto do monarca (bem nota Eduardo Pitta que «a intimidade alheia sempre espicaçou os homens»[1]), farto em pinturas murais que reproduzem cenas de Tristão e Isolda. A dependência, em estilo neogótico, e sobretudo o dossel da cama são hinos à arte de talhar madeira.

         Um funcionário dirige as visitas e, em cada divisão, solta a voz que ressoa as informações gravadas nos audioguias. No meu grupo, uma balzaquiana coberta de mau gosto pasmou de tudo e repetiu «Gosh!» quatro ou cinco vezes.

         De volta ao Seat, vi felicidade no rosto da minha mais‑que‑tudo. Ri‑me de paz, seguimos viagem. Espero termos melhor destino que Tristão e Isolda.

[1] PITTA, Eduardo, Cadernos italianos, Edições tinta‑da‑china, Lisboa, 2013, p. 35. 

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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