Em Wurtzburgo

ID:N°/ Artigo: 3701

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     Movido por promessa feita à minha companheira, fui com ela a Wurtzburgo, cidade que prosperou em tempos medievais e que teve o seu apogeu no século XVIII. Aqui tem ponto de partida a Rota Romântica, itinerário com paragens na Baviera e em Bade‑Vurtemberga. Entre os aprestos de apaixonado, um presente e uma t-shirt com dito de amor.

     Iniciámos o dia na Residenz, palácio barroco de Setecentos. Pelo que li, o edifício deveria servir de habitação aos príncipes‑bispos de Wurtzburgo; segundo a jovem que dirigiu a visita — e que gastou parte dela a louvar o vinho da Francónia —, foi apenas mostruário de riqueza e poder. Apreciei a escada monumental que liga o átrio ao primeiro andar e o fresco de Tiepolo que decora a abóbada da dependência onde ela se encontra e que inclui uma representação alegórica de quatro continentes. Intrigado e confuso ante a sobreabundância de personagens e outros recursos do fresco, pelo punho de Werner Helmberger e de Matthias Staschull[1] apuro que a América é rica em recursos naturais, mas não civilizada — as pessoas sabem lidar com o fogo, mas vivem ao ar livre —, a África atingiu estádio de desenvolvimento superior ao da América — os seus habitantes dormem em tendas e entregam‑se ao comércio —, a Europa é a soberana do mundo, a terra mais ilustrada — cuida das artes, é o templo do cristianismo — e a Ásia é o continente que mais se aproxima da Europa em termos de progresso cultural — conquanto a presença de prisioneiros em pose servil denuncie lugar propício ao conflito. Depois do impacto da escada e do fresco, a sala Branca, pese embora o belo atavio em estuque, dá ao visitante um fôlego que ele logo perde na arrebatadora sala do Imperador, de plano oval, com frescos de Tiepolo e magnífica decoração.

     No percurso guiado, que terminou com uns passos noutras salas de aparato, andámos perto de um par de jovens, ambos com cerca de 25 anos, e apercebemo‑nos de que o rapaz não dominava o inglês, a sua acompanhante teve de fazer tradução para o italiano; isso fez‑me espécie, dava por adquirido o ensino proficiente da língua de Shakespeare nos países que falam a língua de Dante.

     Libertos do grupo, fomos à igreja do palácio. Em maré de amores, aguçava‑nos a curiosidade saber que é a mais procurada de Wurtzburgo para dar o nó. A igreja não desilude: mais obras do incansável Tiepolo, paredes curvas, lauto adorno que pressagia vida de fausto aos nubentes, putti que anunciam filhos.

     Em seguida, passeio de braço dado no jardim da Residenz, esplêndido nas cores e nos cheiros. Mal o deixámos, ufano e cheio de bons vaticínios apontei para placa de cor castanha que assinala a Romantische Straße.

    O almoço, no restaurante B. Neumann, correu bem, os galanteios atingiram o auge e envolveram juras de vínculo perpétuo. Quando, para beber o café, retirei a chávena do respetivo pires, vimos, na parte deste que aquela cobria, um escrito cruel, implacável: «Nichts ist für die Ewigkeit» (nada é eterno). Senti amargo de boca e confirmei que não há bela sem senão.

[1] Helmberger, Werner; Staschull, Matthias, Tiepolo’s world. The ceiling fresco in the staircase hall of the Würzburg Residence, 2.ª edição em língua inglesa, Bayerische Verwaltung der staatlichen Schlösser, Munique, 2017, pp. 32, 48, 56 e 70. 

Paulo Pego
Author: Paulo Pego
Colaborador convidado
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Paulo Pego nasceu em 1967, em Barcelos (Portugal). É doutor em direito, professor da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra e jurista-linguista do Conselho da União Europeia, em Bruxelas (Bélgica). 

Publicou livros e artigos jurídicos e faz palestras sobre temas relacionados com a União Europeia. 

Paulo Pego é autor dos livros de poesia À Senoite (2009), A Lógica dos Corais (2013), Le Sel (2013), Livro das Pedras (2014) - publicados pela Orfeu (Bruxelas) -, Poesia (2014), Em Forma (2014) - publicados pela Anome Livros (Belo Horizonte, Brasil) –, Viagem (2015) – Editora Licorne –, Vida sem Demão (2015) – Editora Labirinto – e Entre-Tecidos (2016; textos de Paulo Pego e obra plástica de Sónia Aniceto) – Editora Licorne.

Publicou contos e traduziu para português poemas de Ada Christen e de Francisca Stoecklin. Participou igualmente em exposições de fotografia.

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