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“A serra d’Arga é o maior tesouro”





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Mulheres! Destemidas! E, conscientes da bandeira que ergueram num não rotundo à exploração de lítio na serra de Arga. Foi um dos primeiros movimentos que surgiu quando a intenção do actual governo era avançar na serra de Arga com a exploração de lítio.

Nunca desmobilizaram e unicamente com intuito de proteger a serra arregaçaram as mangas e tudo fizeram por se fazer ouvir quer junto das populações como também do presidente da república, Marcelo Rebelo de Sousa, a quem entregaram um manifesto. Partidos políticos não estavam nas suas partituras porque o interesse sempre foi um, Não ao lítio na serra.

A semana passada a boa notícia chegou quando em comunicado o governo excluía a denominada Arga da exploração de lítio.

Luso,eu quis conversar com estas mulheres alto minhotas, saber como enfrentaram esta luta e como esta retirada de intenções lhes encheu de orgulho e também de alívio.

Luso.eu - Quando e com que prepósito surge o movimento As mulheres à serra?

As mulheres à serra - O grupo Mulheres à Serra surge pela crença que as mulheres alto-minhotas podiam fazer a diferença na luta anti-lítio, uma vez que as alto-minhotas, por tradição, são matriarcas, defensoras da família, lutadoras, dispostas a ir à luta sem receios e com todas as consequências.

Queríamos que ficasse patente que essas características , por si só, definiriam que estaríamos dispostas a tudo para defender a nossa Serra e que quem viesse com intenções de destruir este território enfrentaria uma oposição forte. Este grupo surgiu na primavera de 2019, constituído, no seu núcleo original, por seis Mulheres:Liliana Silva, Ex-deputada e vereadora na Câmara de Caminha, a mentora do projeto; Paula Veiga, à época em funções de vereação na Câmara Municipal de Viana do Castelo, Fernanda Fernandes, de Covas, Sandra Gonçalves, moradora na Arga de Cima, Zélia Afonso, de Amonde e Regina Pereira, de Nogueira. Este grupo, depois alargado a mais mulheres defensoras da Serra, surge por constatarmos que os vários movimentos, formados na região para defender esta causa, já disputavam entre si o protagonismo nesta luta, desvirtuando a causa em si.

Luso.eu - Desde a sua criação que acções levaram a efeito concretamente no que respeita à questão da serra de Arga?

Começamos por organizar um grande piquenique de mulheres defensoras da Serra d’Arga, que culminaria numa palestra sobre os riscos da exploração mineira, a céu aberto, nesta região e no território português. Esta iniciativa, que teria lugar na primavera de 2020, acabou por não se concretizar porque entretanto se instalou a atual pandemia. Entretanto, o grupo promoveu várias conversas nalgumas freguesias, para alertar as populações para os riscos relativos à exploração de lítio na região, num esforço de mobilização das populações para a defesa da Serra d’Arga e da região contra a extração mineira. Desta forma o grupo foi crescendo, passando a integrar dezenas de mulheres do distrito, mobilizadas pela mesma causa. Participamos em todas as manifestações anti-lítio, locais e nacionais, erguemos um posto simbólico de defesa da Serra d’Arga em Covas, numa iniciativa conjunta com a junta de freguesia de Covas, entregamos um manifesto ao Presidente da República aquando da sua vinda ao concelho de Caminha, participamos ativamente nas redes sociais, no grupo SOS Serra d’Arga e Alto Minho e outros, locais e nacionais. A última acção do grupo foi a mobilização para a participação massiva na consulta pública da Avaliação Ambiental do Programa de Prospeção e Pesquisa de Lítio de 8 áreas potenciais para o lançamento de procedimento concursal para prospeção e pesquisa de lítio, em que conseguimos mobilizar mais de 500 participações, através da submissão de um parecer pré-concebido acessível a todos que quisessem participar.

Luso.eu - Tenho conhecimento que aquando da visita do presidente da república ao concelho de Caminha lhe entregaram um manifesto. Que constava?

AMS- Esse manifesto, precedido por uma manifestação de rua do grupo, foi entregue por Liliana Silva, em que elencávamos as nossas preocupações relativamente à exploração do lítio na Serra d’Arga e territórios adjacentes, solicitando a intervenção directa do nosso Presidente da República para impedir o avanço do projeto nacional de prospeção e exploração de lítio nesta região, nomeadamente na área denominada Arga, que abrangia a Serra d’Arga, nos concelhos de Caminha, Cerveira, Viana do castelo e Ponte de Lima. Já na altura foram públicas as declarações do Presidente da República, no sentido de acreditar que esta região seria excluída desse projeto. 

Luso.eu - Foram criados vários movimentos em prol do não do lítio na serra de Arga, existia união entre todos e consenso?

AMS- Como já referimos, o motivo que nos levou a criar este grupo prendeu-se, também, com o facto de sentirmos que existiam rivalidades e mal-entendidos entre os movimentos locais, na luta pelo protagonismo, pelo que nos quisemos destacar desses constrangimentos, criando um grupo que colaborasse com todos, num espírito de missão, determinação e conciliação que carateriza as mulheres, sobretudo as alto-minhotas.

Luso.eu - Estes movimentos não perderam força quando se tornaram de certa forma politizados?

AMS- O que se tornou evidente, sem qualquer dúvida, foram os aproveitamentos políticos e os conflitos surgidos, que derivaram, em grande parte, dessa situação. Contudo, o que nos foi unindo foi a vontade de lutar pela mesma causa, pela Serra d’Arga, pelo nosso território, pelas nossas gentes e pelo nosso património, o que foi esbatendo essas divergências. Com todas as contrariedades, nunca perdemos o espírito de luta e o resultado está à vista – as populações locais foram ouvidas e Arga foi excluída do projeto de mineração de lítio. 

Luso.eu - As mulheres à serra mantiveram comunicação com os presidentes de câmara dos respectivos municípios onde a exploração de lítio na serra de Arga abrangia?

AMS- O grupo Mulheres à Serra integrava duas mulheres com funções públicas, em cargos de vereação, portanto, a comunicação com os presidentes de Câmara era mais directa.A Liliana Silva foi a mentora do grupo e a mais-valia deste, uma vez que foi a primeira voz em Portugal, ainda como deputada, a insurgir-se contra a prospeção e exploração do lítio em Portugal, mais particularmente no Alto Minho. Foi também quem trouxe o tema para a discussão pública e, de certa forma, quem esteve na origem da mobilização dos diversos movimentos que empreenderam a luta anti-lítio. O grupo incorporou também mulheres muito activas nalgumas freguesias da zona d’Arga, como é o caso da Fernanda Fernandes, de Covas, Sandra Gonçalves, de Arga de Baixo, Zélia afonso, de Amonde, Regina Pereira, de Nogueira, Gui Abreu de Lima, de Ponte de Lima, Sofia Jorge Machado, de Lanheses, Marta Medeiros e Mia Malheiro, entre outras mulheres, residentes e não residentes na zona, como é o caso de Madalena Pires de Lima e Bárbara Moreira. O nosso principal apoio logístico, mentor de todos os nossos projetos de design gráfico é o João Nunes, conhecidíssimo designer, cujo atelier se situa em plena Serra d’Arga. Todas as forças juntas convergiram para o sucesso das acções empreendidas pelo grupo. 

Luso.eu - No entender do movimento As mulheres à serra o que o governo não estava a dizer à população quanto à exploração de lítio?

AMS- O governo não estava a dizer o fundamental, relativos aos efeitos nefastos da exploração a céu aberto que a exploração de lítio implica, gravíssimos, destruidores do meio ambiente, dos ecossistemas, do património ambiental e socioeconómico, altamente contaminadores da água e do ar, focando apenas os seus argumentos nos fatores económicos, alegando a necessária descarbonização. Escondeu também os interesses económicos que fundamentam o projeto de mineração nacional, que visam o lucro para determinadas empresas, sob os pretextos do “green mining”, como se fosse possível minerar sem graves prejuízos ambientais e para as pessoas.  Escondeu também que atrás do lítio viriam outros minérios de valor, todos os que fossem encontrados, e que o lítio seria o pretexto para a mineração “desenfreada”, que uma vez começada não pararia mais e destruiria grande parte do nosso território, com as terríveis consequências já referidas. Foi com o trabalho dos movimentos e dos grupos anti-litio, como o Mulheres à Serra, que as populações tomaram conhecimento das reais dimensões e prejuízos que a exploração mineira implica. 

Luso.eu - Tal como aconteceu na campanha das autárquicas também agora nas legislativas o assunto não foi abordado. Assustou este silêncio?

AMS- Claro que assustou, na medida em que se torna evidente que existem muitos interesses relativamente a este assunto, que implicam muitos políticos no activo.Digamos que politicamente se tornou um não-assunto.

Luso.eu - O movimento participou na consulta pública?

AMS- Não só participou como criou uma iniciativa para mobilizar para a participação massiva das pessoas, em articulação com a associação COREMA, através da Regina Pereira, mentora da iniciativa. Tal como referimos anteriormente, conseguimos a participação de mais de 500 pessoas. 

Luso.eu - E o vosso parecer ao relatório de avaliação ambiental preliminar do programa de prospeção e pesquisa de lítio?

AMS- Foi completamente contra, tendo como base os argumentos da participação-modelo que circulou publicamente., cujo teor era o seguinte:

“Vimos manifestar o total desagrado e consequente repúdio pela campanha nacional de prospeção/exploração de lítio que se encontra destinada a várias zonas de Portugal, em especial no norte do país, na área designada "ARGA".

Num país, como o nosso, tão pequeno, não nos podemos dar ao luxo de perder, irreversivelmente, recursos pedológicos, florestais e agrícolas inestimáveis e que possuímos já em tão pequenas quantidades. Estrategicamente, não faz qualquer sentido trocar este património, insubstituível - para o país e para as populações locais que ainda praticam agricultura de subsistência e consomem águas próprias - por baterias de carros elétricos que serão utilizadas noutros países e que em poucos anos estarão no lixo, provavelmente a contaminar outros locais.

As populações não querem ser mineiras. Querem agricultura sustentável, querem turismo de natureza, querem desenvolvimento verdadeiro. A mineração nunca trouxe desenvolvimento duradouro a nenhum local.

Por outro lado, também não temos interesse nenhum em ver a paisagem do nosso país destruída em minas a céu aberto, que não são mais que crateras cujas dimensões se prevê serem da ordem dos 800 metros de diâmetro por 300 metros de profundidade.

O governo, pela voz do Ministro do Ambiente, afirmou querer estar na primeira linha mundial da descarbonização, sendo esta a forma de o fazer. No entanto, Portugal não tem nenhum dever de sacrificar o seu património natural em nome da descarbonização, quando não é de todo um dos grandes países poluidores responsáveis pelas emissões de gases de efeito de estufa que têm como consequência as alterações climáticas. De facto,devido ao nosso tamanho e responsabilidade em matéria de emissões, qualquer esforço que se faça será sempre deveras curto. 

Os grandes países industriais europeus é que devem assumir a dianteira dessa luta em vez de continuar a poluir sob a capa da mobilidade verde. Na realidade, apenas pretendem deslocar os passivos ambientais para a periferia da Europa - Portugal, a Sérvia, etc - e continuar assim a contribuir para a degradação ambiental longe das suas próprias populações.  

Não pode ser responsabilidade do nosso pequeno país reduzir a pó as nossas montanhas e serras, destruir ecossistemas, arruinar a vida de todos os que vivem nas aldeias das zonas visadas para fornecer matéria-prima a indústrias noutros países. É simplesmente inaceitável. Enquanto a indústria automóvel continua a retirar mais-valias destes negócios, para as populações portuguesas apenas restará a poluição, contaminação de solos e águas.

Para nós é irracional qualquer plano que pretenda salvar o ambiente destruindo o ambiente.

As zonas visadas por este projeto têm características especiais e insubstituíveis ao nível da paisagem, da biodiversidade, do património arqueológico, do panorama sociocultural. No norte de Portugal há uma aldeia em cada monte - ao contrário de países como a Austrália ou a América do Sul de onde tradicionalmente vem este metal e os projetos de mineração se localizam em zonas desertas – característica que torna incompatível este tipo de empreendimentos com o nosso território.

O processo de extração de minerais numa mina a céu aberto, como é o caso do processo de extração que aqui se propõe, terá consequências negativas inaceitáveis a nível de impactes ambientais para os solos, a paisagem, a fauna e a flora, ao nível da carga sonora, para os fatores socioeconómicos das populações locais, para os recursos hídricos e também, para a saúde das populações que em certos casos, de acordo com a comunicação social, se localizam a cerca de 500 metros do local a explorar. 

A maioria destes impactes não poderão ser convenientemente mitigados. Os solos, as águas e a paisagem serão irrecuperáveis. Todos sabemos que estas empresas estão no terreno para fazer lucro sem grandes contemplações e a história da mineração em Portugal e no mundo assim o tem demonstrado. Veja-se o exemplo dos impactos ambientais na mina da Panasqueira e de outras minas vizinhas.

Se queremos realmente atingir a neutralidade carbónica, a solução passa pelo investimento na reflorestação, nos sistemas de transportes coletivos e na educação ambiental da população.

Baterias de lítio apenas armazenam energia, não a produzem. O aumento do consumo elétrico que se adivinha dependerá ainda da queima de combustíveis fósseis, o que torna toda esta estratégia no mínimo falaciosa.

Os nossos representantes eleitos e com responsabilidades no futuro do nosso país, irão com certeza, defender os interesses dos portugueses e não pactuarão com a falácia do lítio e outros metais para a produção de baterias, que de "verde" não têm nada.”.

Luso.eu - Esta questão do lítio na serra de Arga é uma causa de todos e não só das gentes do concelho de Caminha, Viana do Castelo e Vila Nova de Cerveira?

AMS– Sim, , claro. Isso está patente nos argumentos que sempre estiveram na base dos nossos protestos contra a exploração mineira, uma vez que o tipo de extrativismo em causa tem impactes não só a nível local, mas também a nível nacional, dadas as caraterísticas do nosso território, que não tem dimensões para desenvolver um projecto nacional de extração mineira como o que se pretende implementar. Por isso os Movimentos sempre se apoiaram uns aos outros, para ganharem mais força e mais voz. 

Luso.eu - A exclusão da exploração de lítio na denominada zona Arga é uma vitória do Alto Minho? Ou, por outro lado, dos Movimentos que surgiram?

AMS- É, sem qualquer dúvida, uma vitória do Alto Minho, para a qual os Movimentos contribuíram. É uma vitória de todos. Foi sempre esse o objectivo. 

Luso.eu - E, agora? Que ações o movimento tem previsto?

AMS- O grupo Mulheres à Serra, face aos resultados atuais, que excluíram a Serra d’Arga do programa nacional de prospeção e exploração de lítio, vai continuar a apoiar os restantes movimentos que continuam com o problema por resolver nas suas regiões, como é o caso do Barroso, que está condicionado por contratos particulares já assinados e cuja luta anti-lítio prossegue.

Luso.eu - A serra de Arga é?

AMS- A serra d’Arga é, para nós, o maior tesouro que os alto minhotos possuem, um património valiosíssimo, pelas suas caraterísticas socioecónomicas e ambientais singulares, garante de muitos modos de vida, do qual ninguém quer nem pode abdicar e que deve ser preservado pra ser legado às gerações vindouras.


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Isabel Varela
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