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Memórias de um verão à portuguesa

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Um novo mundo floresce. Depois de semanas de isolamento a vida vai, devagarinho, voltando ao normal. O começo do verão começa a trazer aquela necessidade que nos é tão portuguesa, aquela de voltar a casa, de sentir aquele mar, para matar saudades dos seus e do que é seu.

Queria começar por escrever sobre uma coisa leve. Depois de muito pensar achei que podíamos viajar um pouco no verão de Portugal. De como um emigrante que, com a experiência, foi começando a entender o significado do afamado querido mês de Agosto.

Sem Portugal há muitos anos, sem falar ou escrever a língua por outros tantos, gostaria de abordar o que é sair do país, sentir saudades e ter o privilégio de o observar numa outra perspectiva, porque depois de uma década sabe tão bem voltar à comunidade portuguesa. Trouxe-me memórias do meu primeiro verão lusitano.

Estava há quase dois anos sem voltar a Portugal. Tinha saído pela primeira vez do país, tentar “aquela sorte”.  As saudades começavam a apertar e a necessidade de ir falou mais alto. “Mas seria para Agosto, que reboliço!”.  Pensei  em ficar quieta  no meu canto, no entanto fui. Cheguei a terras lusas no pico do verão dos emigrantes. “Porque não, afinal tinha-me tornado uma”, pensei.

Agosto, é sabido por levar a Portugal uma panóplia de emigrantes, alguns de longa data, outros recentes. Reencontros de famílias, de hábitos e de comida que lhes são familiares. Agosto tem um gosto especial a férias e regresso a casa.

Esgueirei-me para uma praia no centro de Portugal. O dia começou chuvoso e o céu estava revestido de nuvens carregadas de água. Um vento fresco e um dia escuro faziam prever um fiasco naquela ida à praia. Mas, eis que de repente, pelo início da tarde, o sol se apresentou mais poderoso que as chuvas e compôs aquele dia numa verdadeira tarde de praia à portuguesa e aos resistentes, que se desafiaram para ali ficar, porque afinal o iodo também queima, juntaram-se os amantes do sol. Carregando consigo todos os utensílios necessários para o verdadeiro dito dia balneário. Pára-ventos, para escapar das tempestades de areia, que fazem parte nas praias mais ao centro, coloridos chapéus para uma sombra necessária e, para que não se passe fominha, as imprescindíveis malas térmicas (para um farnel tipicamente português) começaram a decorar a paisagem.

As cores, o brilho do sol e a sonoridade de um mar bravio, deixaram-me numa espécie de transe. Deixei-me levar pela atmosfera daquela bela tarde veraneante. Sorria, ia escutando pedaços de conversas dos que se passeavam pelo areal. O mar passou aquela pacífica tarde atiçado, tendo feito hastear a bandeira vermelha. Salva-vidas passeavam-se à beira mar, para impedir que os mais destemidos se aventurassem naquelas ondas plenas de bravura.

Ia observando e ouvindo, levada pelo doce sabor de um verão no meu país. Pelo meio ia soltando umas gargalhadas, embaladas pelas conversas à minha volta.

Ali ao lado, uma conversa entre duas senhoras, numa sonoridade bem portuguesa, de quem vive perto do mar desde sempre. Que talvez tenham, muitas vezes, visto pais e maridos ir para o mar, buscar sustento e alimento. Portugal com a sua enorme costa, tanto de beleza como de extensão, não conta apenas histórias de navegadores, reza lendas de pescadores, que ainda hoje se lançam e enfrentam o mar, para trazer para terra uma melhor vida a quem os espera.

Agosto enche praias e enche as vilas mais remotas. Agosto é tempo de alegria, de festejar, seja o que for, desde festinhas populares da vila, do concelho, do distrito, pequenos e grandes festivais de verão.

Pelo país celebram-se festas em aldeias e vilas em homenagens aos seus santos padroeiros. Momentos de reencontro com amigos que estão fora. De encher a casa de familiares e amigos para seguir com os festejos. De dia passam-se algumas actividades lúdicas, o cair da noite enche palcos para dar início aos baile e à confraternização. A comida é de lambuzar e sempre acompanhada de um bom vinho, e para a digestão um cheirinho no café - um whisky ou uma aguardente velha. O domingo guarda uma procissão, solene, respeitosa e aprumada numa bela fatiota domingueira.

Sentimentos de verão, reencontros, festas dão a Agosto e a quem lá volta um cheiro bom a Portugal. Aquilo que já lhe era longínquo, mas que faz bem recordar e melhor ainda estar. “Um pedaço de lar”, senti. 

 

LIa Coelho
Author: LIa Coelho
Colaboradora
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Lia Coelho, nascida e criada na zona de Coimbra, foi nessa mesma cidade que estudou jornalismo. Jornalista de formação e curiosidade percorreu a ânsia da profissão e trabalhou em vários jornais em Portugal e Macau. 

Entre viagens pela Ásia dedicou-se ao ensino da língua inglesa, mas é em português que melhor se sabe exprimir, que gosta de contar histórias e dizer umas coisas. 

Decidiu regressar à Europa e está há cerca de quarto anos na Alemanha, agora sediada em Berlim. 

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