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Cancro: uma pandemia que veio para ficar?

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A palavra cancro usa-se para denominar um grupo muito numeroso de doenças que têm em comum o desenvolvimento de células anormais. Por causas muito diferentes, estas células começam a multiplicar-se e a crescer sem controlo, algo que normalmente não acontece num organismo, onde a maioria das células está programada para viver um período determinado e se divide de forma controlada. As patologias que formam o grupo de males a que denominamos “cancro” são mais de 100. Apesar de serem em elevado número, todas elas têm algo em comum: a maneira como a doença começa.

Já em 2016, a Dra. Fátima Cardoso, médica oncologista, diretora da Unidade de Cancro da Mama do centro clínico Champalimaud, referia-se, na revista Visão, ao cancro como “uma pandemia não contagiosa”, em que já não seria uma questão de perguntar porquê, mas que seria certo que “uma em cada três pessoas iria sofrer desta patologia, em algum momento da sua vida”.

Num artigo de opinião, a médica Adriana Terrádez directora da OncoDNA para Espanha e Portugal, abordava a importância da família e amigos, da boa companhia e a sua importância em todo o processo de tratamento da doença oncológica. Se abordarmos todos os conhecidos, amigos e familiares, a primeira coisa que sobressai é o momento do diagnóstico. O momento é descrito pela maioria de quem recebe a notícia, como um perder o chão, o fôlego e o pensamento iminente do: “porquê eu?”, porquê agora?”, “isto não pode estar a acontecer comigo”.

Consequentemente, é assim importante haver um acompanhamento adequado, não só familiar e de amigos, mas também de profissionais que irão trabalhar com os doentes todos os dias. O paciente sentirá maior confiança ao longo de todo o processo de testes, análises, tratamentos e consultas. Apoio esse que terá de ser contínuo e prosseguir mesmo após as fases de tratamento, para que o doente não tenha nenhuma espécie de recaída.

Ao longo dos anos, têm surgido várias plataformas e organizações que fornecem este apoio, tanto a nível psicológico, como físico com conselhos nutricionais e de hábitos saudáveis que poderão fortalecer o sistema imunológico do paciente, a fim de o ajudar neste longo e, muitas vezes, cansativo processo.

A médica oncologista Emília Vieira, fundadora da associação Amigas do Peito, referiu o ano passado que a “prevalência do cancro da mama tem aumentado, mas felizmente as respostas também”. Para esta especialista o primeiro erro que qualquer paciente faz é recorrer à internet. Numa entrevista ao Público, Emília Vieira justificou que “muitas vezes, as mulheres não sabem procurar informação ou têm-na a mais e entendem que o cancro é pior do que é, na realidade”.

Para a fundadora da associação Amigas do Peito, não existe uma resposta fácil ao porquê desta doença. “É a doença do século, fruto do ar que respiramos, da vida que temos, da comida que comemos. A obesidade, o tabaco, o álcool, muitos alimentos transgénicos que nem sabemos que comemos”, refere.

Num ponto, todo os especialistas estão de acordo: dar a notícia a alguém que tem cancro não é uma tarefa fácil e é preciso fazer com bastante humanidade. Lamentavelmente, há muitos profissionais que não possuem essa característica, podem ser excelentes profissionais, mas não são psicólogos e podem não ter a sensibilidade que é necessária.

Tanto em Portugal, como fora, os portugueses são cada vez mais diagnosticados com esta patologia. Todos nalgum momento das suas vidas, enfrentam ou vêem alguém próximo a enfrentar este terrível diagnóstico. A dificuldade que acresce a qualquer emigrante é o estar longe do seu país e não conseguir apoiar quem precisa, ou ter o apoio de todos que precisa, a não ser por telefone e vídeoconferência. Como refere Cristina Costa, emigrada na Suíça: “a pessoa que teve cancro na minha família foi o meu padrasto (que considero como pai). Foi muito difícil vê-lo a sofrer daquela maneira e mais difícil foi sentir o sofrimento da minha mãe. Neste caso senti-me impotente a dobrar, por estar longe e não conseguir ajudar nem um nem outro.”

Silvia Maria, também a viver na Suíça, não tem ninguém em casa a passar por um problema destes, apesar do tumor benigno na mama, que tem sido constantemente vigiado. Mas tanto a sua irmã como cunhada estão a passar por processos de tratamento. “A minha irmã graças a Deus está em remissão e está a correr bem (Neoplasia ivasiva da mama ). A minha cunhada está em fase de tratamento com químio e rádio a um tumor maligno na garganta não operável. São situações muito difíceis de gerir, quando estamos longe e não podemos ajudar de outra forma que através de telefonemas e chamadas de vídeo. E quando desligamos essas chamadas, fica um sentimento de impotência que dói”.

Apesar de não se encontrarem no país de origem, grande parte dos emigrantes sente que o tratamento e o processo é muito bem realizado na Suíça e não costumam recorrer a segundas opiniões em Portugal.

Vera Lúcia acordou uma manhã para preparar o pequeno almoço, como já era seu hábito e sentiu um peso por baixo do queixo. Marcou uma consulta e a ecografia revelou um problema na tiróide. O passo seguinte foi a biópsia no hospital e dois dias depois, antes da operação à vesícula que tinha anteriormente marcada, foi-lhe dito que a operação teria de ser adiada, porque os resultados da biópsia revelavam um tumor maligno na tiróide e teria de ser operada a esse tumor. “Retiraram os nodulos e a tiróide por completo (neste momento vivo com um comprimido para o resto da vida que subsitui este órgão, mas que se a dosagem não for a certa pode ser fatal) fiz radioterapia e continuo a ser seguida”, recorda Vera. A emigrante não sentiu necessidade de ir a Portugal pedir uma segunda opinião. Sempre se sentiu bem tratada na Suíça: “5 estrelas não tenho razões de queixa e não são como em Portugal, onde há ainda muitos médicos a dar outros nomes ao cancro para esconder, aqui tenho um um excelente médico, que me apoiou bastante”.
“Apesar de eu ser uma bomba relógio na nossa vida e uma vez que o cancro da tiróide é tão pouco falado, mas muito complicado, tenho um menino pequeno que precisa de mim e é por ele que luto todos os dias contra as dores e males que carrego”, conta a mesma.

Também Susana Gonçalves, passou o ano de 2019 em tratamentos contra o cancro da mama e sente-se sortuda por estar na Suíça, uma vez que foi sempre “super bem recebida, atendida e tratada, sempre houve explicação para tudo e a minha opinião era escutada, eu era a figura principal”, relembra a emigrante. No seu caso, se tivesse a residir em Portugal, teria sido muito complicado, pois o hospital é longe de casa e não poderia fazer todos os dias o mesmo percurso para fazer o tratamento. “Sabe bem podermos vir para casa descansar depois de um dia de exaustão de tratamento” afirma. No meio de todo este problema refere ainda a sorte de ter trocado de emprego pouco tempo antes de ser diagnosticada, pois permitiu que tivesse direito a baixa médica, ajudando a suportar as despesas, que são muitas. “Agora tenho cinco anos pela frente e só me resta rezar para que esta maldita doença não volte”.

Cristina Costa fala das complicações que o cancro no seu padrasto trouxeram para a economia de casa. “Acredite numa doença assim, a esposa não tem direito a pôr baixa por assistência a família. Foram tempos difíceis, porque através dessa maldita doença vieram outras atrás: diabetes, colestrol, doenças na pele”.

Manuela Sá, foi seguida no Centro Hospitalar Universitário de Vaud (CHUV) em Lausana e terminou há pouco tempo os tratamentos. Não sentiu ter sido mal acompanhada até agora, tendo feito todos os exames possíveis e teve apoio psicológico da liga contra o cancro, bem como aconselhamento nutricional. “Depois da operação em Julho, ainda sinto muitas dores, mas tenho esperança de ficar melhor do braço e peito”, afirma confiante a emigrante.

A Luso.eu, falou também com uma jovem, que com 15 anos descobriu que tinha Leucemia Aguda Bifenotipica, uma das mais raras no mundo. Tudo iniciou com a primeira ida ao ginecologista e umas análises ao sangue que revelaram que algo não estaria bem. Após várias semanas de diagnósticos errados, foi no hospital de Aarau que lhe disseram o que tinha e o que teria de ser feito. “A médica chefe meteu-se à frente de todos e disse a frase... Eu não a ouvi, mas ouvi a voz da minha amiga a quebrar-se em mil pedaços, quando ela teve de traduzir tudo à minha mãe”.

“9 de abril de 2018 foi o dia em que me foi diagnosticado a leucemia. Nessa semana eu perdi 10Kg nao comia nada e beber pouco, só me levantava para ir à casa de banho, com ajuda de alguém” relembra Cynthia. Depois de ser operada foi transportada de helicópetero até ao hospital de Basiléia, uma vez que a febre não parava de aumentar, o batimento cardíaco estava fraco e os pulmões em estado grave. “Os senhores que me levavam de helicópetro eram uns amores e riram das minhas piadas. Eu brincava e brinco muito com o assunto e não sou a única por acaso, várias crianças não gostam de levar o cancro como uma coisa má, ficamos tanto tempo a conviver com ele que acaba por se transformar num aliado, em vez de um adversário”.

“A partir daí eu fui um ratinho de laboratório...mas foi por bem, tudo o que fizeram em mim irá ajudar pessoas com o mesmo tipo de leucemia que eu. Nessa semana eu rapei o meu cabelo (melhor sensação) eu adorei ficar careca, estava sempre fresquinha e nao tinha aquele trabalho todo em lavar e pentear”, contou Cinthya.

Ainda pensaram inicialmente em recorrer a uma segunda opinião em Portugal, mas dada à sua fragilidade seria dificil de realizar essa viagem. Chegou a ser convidada para realizar tratamento na Turquia, mas recusou. “Eu senti-me bem onde estava e o hospital de Basileia acabou por ficar como a uma segunda casa para mim”, referiu a jovem. No momento em que falou com o Luso.eu, Cinthya agora com 17 anos, está a lidar com as consequências do transplante a que foi sujeita e as suas plaquetas baixaram drasticamente em Abril de 2020. “Mesmo com o transplante a minha leucemia pode sempre voltar a qualquer altura e isso não é só no meu caso, a maioria das pessoas pensam que é só rapar a cabeça e pronto, mas nao é assim. Já passaram dois anos desde o tranplante em Agosto e ainda estou a recuperar. O cancro infelizmente não tem cura definitiva podemos fazer um, dois ou mesmo três transplantes e mesmo assim, o cancro pode sempre voltar” explica Cynthia.

Por causa da situação especial que o mundo atravessa, o hospital onde Cynthia se trata, tem mais restrições “não entra qualquer pessoa por isso é mais tranquilo, mas noto que puseram as crianças todas em isolamento nos quartos e por isso estão cheios... mas na parte do atendimento não tem sido muito dificil, por acaso”, conta a jovem emigrante.

Como a Dra. Cardoso referiu numa entrevista ao Diário de Notícias, “o cancro como doença não vamos conseguir eliminar”. Uma vez que se trata de combater o próprio organismo será possível apenas conviver com a doença, em alguns casos tratar e matar o cancro. Mas a cura no sentido generalizado será impossível, de acordo com a especialista e médica oncológica Dr. Fátima Cardoso.

É necessário entender que o mundo vive lado a lado com uma doença pandémica, não no sentido infeccioso, mas porque os casos de diagnóstico de cancro continuam sempre a aumentar sem parar. E é por conseguinte importante que todos os esforços caminhem no mesmo sentido: estudar e desenvolver os métodos de tratamento, a fim de que se tornem menos evasivos e menos tóxicos, mas muito mais eficazes.

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