Belinda Campos Xavier
Investigadora Portuguesa
no Centro Hospitalar Universitário Vaudois
Natural de Avelanoso, concelho de Vimioso e distrito de Bragança, licenciou-se em Biologia pela Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra e em 2002, doutorou-se em Genética Humana pela Universidade René Descartes em Paris. Coordena projectos de Investigação na área das Doenças Genéticas do Esqueleto em Lausanne, nomeadamente o estudo da doença denominada Omodisplasia (Tipo Recessivo), que resultou na identificação do gene responsável por esta patologia. Foi-lhe atribuido em 2007 o 1.° Prémio de Investigação Nestlé no Suiss Pediatric Research Meeting e recentemente viu os seus esforços compensados, com a publicação de um artigo na revista científica internacional American Journal of Human Genetics.
Quando do estágio de licenciatura efectuado no laboratório de Biologia Molecular do Serviço de Hematologia do Centro Hospitalar de Coimbra em 1996-1997, foi-lhe proposto participar num projecto de identificação do gene responsável (mapeamento genético) da doença Camurati-Engelmann (doença óssea), no âmbito de um Programa de Cooperação Científica Luso-Francesa ICCTI/INSERM, o que lhe valeu mais tarde ter a oportunidade de fazer uma Pós-Graduação em "Genética Humana e Biologia Molecular" no Service de Génétique Medicale (INSERM), Institut Necker em Paris, com o objectivo de identificar o gene.
A sua paixão pela genética, a descoberta das doenças ósseas, a biologia molecular e os desafios da investigação, fizeram com que os seis meses previstos em Paris se transformassem em quatro anos e meio, fazendo o Doutoramento a convite do Professor Arnold Munnich, então director do Institut Necker. A sua motivação levou-a ainda mais longe, quando decidiu de fazer um Pós- doutoramento ("PosDoc") e como em Lausanne o Professor Andrea Superti-Fuga e a Doutora Luisa Bonafé criaram o service de Pediatrie Moléculaire no CHUV, foi responsável pela investigação molecular de uma das doenças do projecto entre 2003 e 2005.
Em 2005 foi para Lisboa convidada por um laboratório para criar uma unidade de diagnóstico de doenças genéticas de susceptibilidade, (Cancro da mama, Colesterol) e de investigação, mas após um ano decidiu regressar a Lausanne.
Pessoa de uma extrema amabilidade, respondeu às nossas perguntas, para os leitores do Gazeta Lusófona.
O que é deixar o torrão natal e viver outras experiências noutros países?
Na minha opinião, todas as pessoas que acabam uma licenciatura em Portugal, antes de entrarem no mercado de trabalho, deveriam passar um ano no estrangeiro. Não digo isto porque seja apologista do lema "cá fora é tudo bom e em Portugal é tudo mal". Digo isto porque todos os países têm coisas boas, menos boas e coisas más. O facto de trabalhar no estrangeiro, permite conhecer outras realidades, (diferentes daquelas em que nós crescemos) e dessa forma "aprende-se" a dar valor a imensas coisas boas do nosso país , mas também a ter um espírito crítico que ajudaria a melhorar alguns aspectos da sociedade portuguesa. Pessoalmente a ida para Paris e depois para a Suíça, foram duas decisões muito importantes para o meu percurso profissional que me permitiram aprender e conhecer imensas coisas ao lado dos experts em genética. Também a nível pessoal o meu contacto com sociedade e culturas francesa e suíça, ajudaram a construir-me e a tornar-me na pessoa que sou hoje. Racionalmente tudo isto são pontos positivos de ter deixado o nosso país. Mas se falarmos do lado emocional, então aparecem os pontos negativos de viver no estrangeiro, como o facto de estar longe da família e ter de dia após dia viver quase com o sentimento de culpa por não estar mais perto. Claro que ~há outros inconvenientes de menor importância como por exemplo algumas das regras sociais que são muito diferentes daquelas em que crescemos ou até o clima muito frio (que eu detesto) mas que com o passar dos anos acabamos por nos adaptar.
É costume dizer-se que os sonhos marcam a juventude. A profissão que exerce actualmente, fazia parte dos mesmos?
No meu caso, não falaria em sonhos de juventude, mas sim em sonhos de infância. Desde muito pequena, mesmo antes de ir para escola dizia: "quero ser médica não para ver os doentes, mas para arranjar a cura para as suas doenças". Já mais tarde no ensino secundário quando tive o primeiro contacto com a genética tive a certeza de que era nesta área que iria trabalhar. A partir daí, todas as minhas escolhas foram feitas com base na curiosidade que a genética me despertava.
Com um trabalho desta índole, conjugar vida social e profissional é tarefa fácil?
Nos últimos anos, dediquei em média, 12 - 14 horas por dia à investigação e também muitos sábados e domingos a trabalhar. Pessoalmente sei a que horas chego, mas nunca sei a que horas vou terminar. A investigação é por um lado um trabalho de equipa, o que implica estar no laboratório às mesmas horas que os colegas, mas por outro lado é um trabalho solitário, porque requer muitas horas a ler, a pesquisar, a interpretar, a estabelecer protocolos de trabalho, etc.... Com este ritmo é por vezes complicado ter uma vida social e muitas vezes tenho que fazer um esforço quase de "tortura psicológica", para me obrigar a mim mesma a sair do gabinete/laboratório. É engraçado, mas no meu círculo social, sou a única que exerce esta profissão e que por vezes tenho algumas dificuldades em explicar as razões pelas quais, por exemplo, fico a trabalhar até à meia-noite, ou porque vou trabalhar aos sábados e domingos.
O seu nome como cientista e investigadora, é naturalmente associado ao país de origem. Tem conselhos para a comunidade jovem que vive na Suíça?
Na realidade, nas publicações científicas, os investigadores são "associados à nacionalidade" do centro/equipa do qual fazemos parte e não à nacionalidade dos investigadores. De qualquer das formas eu sou portuguesa e tenho muito orgulho em referi-lo sempre que me colocam a questão. Nestas coisas da ciência não há nacionalidades, mas sim pessoas que tentam chegar a um objectivo comum. Penso que esta divisa se pode aplicar a todas as áreas profissionais e até pessoais. Se virmos bem, a Suíça também é um bom exemplo, é um país onde pessoas de diferentes nacionalidades, são forças importantes do desenvolvimento. Um outro exemplo é o hospital onde eu trabalho (CHUV), que em 2008 tinha noventas e duas nacionalidades representadas. À comunidade jovem digo: aproveitem as oportunidades culturais e educacionais que a Suíça proporciona, acreditem nas vossas capacidades, lutem pelo que querem, pois com disciplina e perseverança é possível atingir-se um nível de excelência.
A integração e adaptação em terras helvéticas e no seu caso específico, numa equipa intenacional, é sinónimo de sucesso?
Uma cas características que define bem os seres humanos é a sua capacidade de adaptação, que modéstia à parte, portugueses têm bem desenvolvida. Acredito que a integração e adaptação aos países de acolhimento são uma componente importante para se alcançar o sucesso, porque se nos sentir-mos bem, teremos com certeza uma maior capacidade de trabalho. No entanto não podemos esquecer a outra componente que é o nosso empenho, o rigor, o entusiasmo com que exercemos a nossa actividade profissional. De nada serve estar integrado e adaptado ao país, se depois profissionalmente, somos desleixados ou irresponsáveis. No meu caso diria que o bom resultado obtido profissionalmente (identificação do gene responsável pela omodisplasia tipo recessivo publicado na revista científica American Journal of Human Genetics) é a consequência da conjugação de vários factores: por um lado, muitas e muitas horas de trabalho, muitas noites mal dormidas, muitos fins de semana passados a trabalhar e do outro a forma e as condições de trabalho que me foram proporcionadas. É claro que essa integração não dependeu só de mim, para isso muito contribuiu, a forma afável como fui recebida em 2003 quando cheguei a primeira vez ao laboratório, (ou até da segunmda vez), o Professor Andrea Superti-Fuga e a Doutora Luísa Bonafé.
Gostararia de deixar uma mensagem para a comunidade lusa?
Segundo uma notícia recente há cerca de cinco milhões de portugueses espelhados pelo mundo, o que demonstra bem a capacidade que os portugueses têm de se adaptar nos países que os acolhem para trabalhar. Se pensarmos que só na região de Lausanne há cerca de 55 mil, temos quase a sensação de viver numa qualquer cidade portuguesa. A comunidade lusa tem sabido ao longo dos anos adaptar-se e integrar-se na sociedade suíça, mas seria importante que todos os portugueses independentemente da geração, sintam orgulho em serem portugueses e que não percam os laços políticos, culturais e humanos com Portugal. Naturalmente aproveito a proximidade do Natal, para enviar a todos os membros da comunidade lusa, votos de um Natal cheio de paz, de harmonia e amor e que o Novo Ano, traga tudo que desejam.
Amilcar Figueiredo / Gazeta Lusófona





