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quinta-feira, 04 março 2021

Crónica do H. D. Onde se fala de pandemia e do padre António Vieira



Joana trouxe chá e filhós, e sentou-se ao lume com o filho e com Joaquim.

A conversa decorreu solta, seguindo em frente, voltando atrás – como as labaredas lambendo uma cavaca, ora aqui, ora ali.

Quando eu era menina as pessoas lembravam-se da gripe espanhola, que afinal não era espanhola mas norte-americana, e foi trazida para a Europa pelos soldados. Foi terrível, na aldeia morreu gente. As pessoas vomitavam sangue, o sangue saía pelo nariz e pelos olhos. Mas quem ficou, ficou mais rijo, dizem.

Como e quando vamos sair desta pandemia?

Joana era senhora de um pessimismo lúcido. Como gostava de dizer – a ver vamos, diz o cego.

A humanidade é indestrutível. Nós crescemos com as crises que ultrapassamos e a humanidade no seu conjunto também. Isto não é fácil, eu sei. A tia Alzira diz que isto é um castigo de Deus. Mas será que Deus é cego, para castigar os bons e os maus? Isto é um castigo da Natureza, isso, sim. O vírus não surgiu do nada. Do nada, nada surge. Portanto, ele andava por aí. Os males que nós estamos a fazer ao Planeta é que tornaram possível a sua ligação aos humanos. Pois se as fontes onde em criança bebíamos à beira da estrada a caminho do Porto hoje já não existem ou têm uma tabuleta a dizer ÁGUA IMPRÓPRIA PARA CONSUMO! Que podemos nós fazer? Portanto, vamos crescer e aproveitar esta crise para repensar o nosso estilo de vida e crescer. A filha do Albano, que estava a trabalhar num banco em Londres, já em dois mil e vinte retornou à aldeia, reconstruiu a casa dos avós e do pai e está lá a viver. Tenho falado muito com ela. Diz que em Londres tinha muito dinheiro, mas não tinha qualidade de vida. As horas que passava em transportes públicos, o ar irrespirável e a falta de segurança trouxeram-na para cá. Diz que podemos viver melhor com menos. Que basta diminuir os gastos em viagens de turismo para isso. Que a saúde mental é a mais importante para a felicidade. E eu que nunca saí de Portugal! O mais longe que estive foi no Porto.  Isto a que chamam globalização é que estragou tudo. anteontem o vírus estava na China, ontem já estava em Inglaterra e hoje já cá o temos. Não creio no castigo divino. Seria imoral e Deus não é imoral. É a natureza a virar-se contra nós.

Mas isso também é imoral.

A natureza não tem moral. Lembra-te do Sermão aos Pexes, do Padre António Vieira. Os peixes pequenos são comidos por maiores e estes por outros maiores. Assim, os humanos. Quem se safar vai sair mais forte.

A pandemia tornou-nos mais nórdicos, mais racionais.

Mais nórdicos?

Sim. Aprendemos a manter as distâncias. Os humanos, como outras espécies, necessitam de espaço vital. Nem muito próximos nem muito distantes. Somos um pouco como ouriços-cacheiros. Distantes sofremos de solidão e se nos aproximamos demasiado sofremos com as picadas uns dos outros. Como quando entramos numa autoestrada e temos o aviso MANTENHA A DISTÂNCIA DE SEGURANÇA, também deveria haver à entrada da vida este aviso.

E há. A natureza sabe o que faz. Nós é que tendemos a ignorar este aviso. Por isso aprendemos que as megapolis são uma bomba-relógio. Tanta gente junta não pode fazer bem à saúde. Isto já se sabia, e por isso as televisões se afanam em criar entretenimento que ajude a suportar tanta proximidade e os centros comerciais se tornaram as novas catedrais.  Os romanos sabiam, o povo quer pão, vinho e circo.

Por outro lado, e isto é muito importante, a pandemia obrigou as pessoas a parar e a reflectirem. Tudo estava assegurado. Há dois anos o jornal Expresso publicava um artigo com o título “Os adolescentes portugueses vivem numa bolha de felicidade”. Bem, agora aprendemos que a realidade pode mudar muito rapidamente.

Tu és um pessimista optimista, e o teu bom humor faz-me bem. Mas eu sou só um pessimista. Penso que a humanidade não vai aprender nada. Está toda a gente morta que isto volte ao “normal” anormal das auto-estradas a abarrotarem de carros poluentes.

No Inverno os dias são curtos. Ia anoitecendo e Joaquim regressou a casa.

 

Luso.eu - Jornal das comunidades
Manuel Silva-Terra
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