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A manifestação do Homem como fenómeno construtivo da Natureza

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A linha reta é uma manifestação peculiar do ser humano na natureza. Este, que tem uma vontade natural de expansão, é impulsionado a dar continuidade aos limites do seu corpo para o meio que o envolve, a fim de ampliar o seu território íntimo. Através desta fundição cria-se um novo ambiente, que nem é do homem, nem é natural.

Na busca pelo seu lugar, procura o espaço transitório entre o que conhece de si mesmo e o que compreende da natureza. O desejo por expansão dos limites físicos motiva o Homem a encontrar nas linhas retas uma continuidade estável. Explora as linhas retas e algumas linhas curvas a fim de dar resposta a uma variedade de fatores que satisfazem as necessidades humanas, não sendo, porém, uma estratégia que pretende reproduzir a natureza.

A natureza engloba, na sua expressão, fenómenos imprevisíveis na maior parte das vezes, sendo que noutras são constantes pela sua repetição cíclica. A evolução permitiu que este caos aparente fosse estabilizador a todas as formas de vida que existem e a todos os ciclos que permitem estas primeiras.

Recente no tempo de evolução do seu meio, o Homem encontra-se, neste momento, ainda na procura pelo equilíbrio entre a delimitação dos seus limites estáveis e a natureza frágil e em constante mutação que o sustém.

Entre edifícios mais altos ou mais baixos, mais curvos ou mais retos, observamos nas cidades uma imensa variedade de experimentação, sinal dessa vontade de procura. Podemos interpretar toda a malha edificada como o conjunto de experiências que tentam encontrar o sítio do Homem, ou, de forma mais exata, os sítios do Homem. Transformar os lugares em espaços para viver torna-se a prova fundamental da sua vontade em, mais uma vez, exteriorizar-se na sua criação, sendo, portanto, imprescindível identificar-se com ela.

Na expressão criativa humana ocorre algo de fascinante: abre-se uma porta ao deslumbramento, em que a matéria que é monumentalizada para delimitar um espaço do Homem torna-se, também ela, objeto de apreciação. É alvo de fascínio o modo como a natureza se manifesta, segundo a perceção humana, e assim pretendemos que seja a nossa criação. Na simplicidade com que olhamos a natureza, somos profundamente inspirados por ela e por todos os elementos que a constituem, mas não nos interessa reproduzir esses elementos particulares, incapazes de se subsistirem na ausência uns dos outros.

Aquilo que aspiramos ter domínio na nossa criação é também aquilo que nos intriga: não a particularidade, mas todo o conjunto natural como o exemplo mais perfeito de engenho, harmonia, estabilidade, simbiose, interdependência, pluralidade, abundância, entre tantos outros atributos. No fundo, o maior desafio da criação humana é conseguir, a partir da linha reta e de outros fatores simples, abarcar os conceitos que nos provocam o sentido de deslumbramento. Saber como a criação poderá superar a primeira fase de resposta ao conforto pessoal e convidar, também, a nossa emoção, seduzindo os nossos sentidos.

Quer o motivo do deslumbramento seja de génese humana ou natural, podemos compreender a nossa proximidade com aquilo que nos inspira: tanto o Homem como a natureza expressam, na pluralidade dos seus códigos, uma vontade em se prosperar, fazendo da sua força criadora a continuidade natural de si próprios. Não só existe uma semelhança como também uma codependência óbvia: é nos sítios outrora manifestados pela natureza que o homem se espelha a si próprio, tendo como ferramentas todas as matérias primas para construção da sua envolvente, bem como para a construção de si próprio.

No fim das contas, sabemos que se trata de uma criação deslumbrante aquela que delimita os espaços da vida humana na procura pela compatibilização com o meio natural, procurando ver materializados, na sua obra, os valores totalizantes inspirados na natureza. A intervenção humana torna-se peça-chave de um lugar, por poder complementar as necessidades que o homem visa servir a si próprio, sem nunca cair no equívoco de pensar que esse lugar precisaria de tal peça para, de algum modo, ser integral.

A matéria humanizada quando enquadrada não funcionará como um bloqueio da evolução cíclica da natureza que nos sustenta. Pelo contrário, a criação dos espaços do Homem só poderá resultar em mais um fenómeno construtivo, que irá ao encontro da energia de expansão global, de todos os seres e de todos os sistemas. Se a procura pela nossa estabilidade enquanto espécie tiver inspiração na naturalidade de todos os sistemas terrestres, encontraremos sempre forma de acompanhar a natureza selvagem e, portanto, a nossa própria natureza, em constante metamorfose.

Ana Sofia Graça
Colunista
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Nascida na ilha da Madeira no ano 1994, tirou o Mestrado em Arquitetura em 2018, na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Após um estágio europeu e experiências de voluntariado, atualmente exerce a sua profissão no Algarve. Nos seus tempos livres procura aprofundar a vertente mais teórica da sua profissão, na possibilidade de encontrar um caminho onde exista maior equilíbrio entre o exercício do seu ofício e o meio que nos sustenta a todos.

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