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Estará o streaming a matar o cinema?

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Um pouco por toda a Europa assistimos à estreia tão anunciada do novo filme de Christopher Nolan “Tenet”, uma proposta cinematográfica que promete levar os espectadores de volta às salas, depois de vários meses com lançamentos relativamente tardios de filmes do último ano ou até mesmo de reposições de versões restauradas, que, como sabemos, costumam ser pouco cativantes para os espectadores do cinema mainstream.

O realizador aclamado por “O Cavaleiro das Trevas” (2008) e “A Origem” (2010), teve dificuldades em distribuir “Tenet”, cuja estreia foi modificada por três vezes, e chegou mesmo a estar sem data de lançamento anunciada desde meados de julho. A chegada em finais de agosto, independentemente do facto de ter dividido a crítica especializada, parece ter originado duas perguntas que realmente rotularão o cinema em 2020: estará o streaming a matar o cinema? Pode um único filme salvar a experiência coletiva da sala escura?

Verdade seja dita, os filmes foram concebidos para serem vistos no grande ecrã, porém seja ou não pelo contexto de pandemia COVID-19, o streaming veio complementar a sétima arte, e não destrui-la, como as mentes mais convencionais querem apelar. O streaming é quase como um caderno de rascunhos que se dá a uma criança que quer aprende a escrever ou até espelho daquele ansioso momento em que, após terminamos a carta de condução, precisamos de um veículo para irmos perdendo os medos e os receios da estrada. O streaming será para as atuais gerações cinéfilas e estudiosas do cinema uma ferramenta chave para a discussão ensaísta de obras de arte. O streaming é um acompanhante perfeito para o bloco de notas que se encontra ao seu lado. 

Dentro da panóplia de plataformas existentes - Netflix, Prime Video, MUBI ou Filmin (está somente disponível em Portugal e em Espanha) -, são várias as obras do cinema de autor que poderemos escolher e aprofundar os nossos conhecimentos. Temos filmes de John Ford, Alfonso Cuarón, Woody Allen, Apichatpong Weerasethakul, Mia Hansen-Løve, Ingrid Bergman, Martin Scorsese, Federico Fellini à distância de um clique. Não há problema com isso. Admitamos que somos mesmos uns privilegiados, porque não estamos dependentes da distribuição / relançamento em sala para ver um filme destes artistas. A nova casa, que pode estar numa grande metrópole em constante azáfama ou numa pequena localidade apagada do mapa-múndi, transforma-se numa pequena atmosfera de imagens em movimento. O streaming é a democratização essencial para que a arte possa subsistir no mundo das tecnologias.

Pequeno aparte apenas para o facto do mercado dos DVD’s e Blu-ray’s também ter conseguido o mesmo rótulo, mas cada vez mais tem um público muito mais reservado.

Remontando ao tema central, o streaming como qualquer sistema político democrático, tem as suas falhas. Há a possibilidade de aceleração do ritmo da reprodução na Netflix, de colocar pausas nos filmes ou até de desligar o computador ou telemóvel e voltar a ver um filme quando a comida já estiver pronta, por exemplo. Mas estes são pequenos atributos direcionados ao público que não quer perder tempo com a cultura. Não fomos ensinados para ter tempo para ver filmes. Temos cada vez menos tempo para a cultura, para o mundo em redor porque somos escravos do mercado laboral. Não temos culpa nenhuma disso. Enquanto a cultura cinematográfica não for mais e melhor promovida junta dos novos públicos - nas escolas e nas universidades -, ver um filme é quase como atirar um papel para o lixo, que pode ser substituído rapidamente por outro com uma aparência mais polida.

Enfim, como disse Tilda Swinton ao receber o Leão de Ouro de Prémio de Carreira no Festival de Veneza que começou na quarta-feira dia 2 de setembro: “Cinema, Cinema, Cinema”. Por muito que a experiência da sala escura pós-COVID-19 convoque uma experiência de visionamento muito diferente, a verdade é que o cinema tem obrigação de prevalecer. Temos o dever e o direito de lutar por isso: pela arte das imagens em movimento que mais subtilmente tem influenciado o pensamento e a forma como olhamos para o mundo.

Virgílio Jesus
Colunista
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Amante e cronista cultural, formado em Ciências da Comunicação em 2015, e com Mestrado em Cinema e Televisão, finalizado em 2017, pela Universidade Nova de Lisboa, já passou por vários meios portugueses e internacionais como editor de conteúdos, onde tem procurado despertar o interesse dos distintos espectadores para a ampla oferta do mundo do entretenimento. 

Textos deste autor:

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