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quinta-feira, 21 outubro 2021

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Um arco-íris num dia cinzento



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O meu estado de espírito esteve semelhante às condições meteorológicas adversas na Madeira esta semana. Períodos de tristeza forte a moderada com ocorrência de aguaceiros. Ainda assim, despoletava, por breves instantes, no meu coração um arco-íris tímido, mas suficientemente forte para me fazer acreditar que o meu céu pode sempre clarear. 

Curioso que esta foi a semana da minha vida em que mais vi este fenómeno da natureza a explodir no céu e que não me deixa de encantar. De repente parece que a minha criança interior traz-me, de novo, o espanto, essa sensação distante que no mundo monótono e robotizado dos adultos fica mais adormecida, ainda que latente.

Senti que no meio da minha nebulosidade e tempestade interior formava-se um arco-íris, mesmo nestes dias mais tenebrosos.

Reparei nisso ao deambular pelo Funchal. Tomei a liberdade de calcorrear a baixa, algo que já não fazia há muito tempo. Notei a cidade com pouco ânimo, melancólica, taciturna até. Parecia que estava mergulhada na obra de Herberto Helder, os "Passos em Volta". 

E, apesar de ver a preparação das iluminações de natal na cidade, e reparar naqueles homens de trabalho, presos no topo das árvores para nos trazer a Festa aos olhos e ao âmago da nossa essência madeirense, senti que havia uma tristeza a ruminar na calçada, uma falta de fôlego que nos engole nesta incerteza que os tempos pandémicos nos trazem. Uma certa inércia borrifava o ar e contagiava-me o espírito.

Partilhei este desabafo por mensagem com um amigo, que me falava sobre gostar de ver a cidade assim, despida de turistas. Nua e crua. Eu entendi o que ele quis dizer e respondi que no caos há beleza. Sempre acreditei nisso. Há sempre um arco-íris prestes a se formar, entre o limbo do sol com a chuva. E é por isso que é tão difícil para mim ficar muito tempo chateada com a minha reles existência, mesmo que seja tão mundana e aparentemente sem sentido.

Enquanto continuava pela minha errância funchalense, decidi ir até ao Jardim Municipal. Um local que muitas pessoas não consideram seguro por ser o lugar onde se reúne gente que, à falta de abrigo, refugiam-se ali naquele jardim, nos pulmões da cidade, com um anfiteatro aberto e disponível para a magia do universo, em frente ao majestoso Teatro Baltazar Dias. 

Estava sentada num banco, distraída na minha falésia emocional. Dei por mim a pensar no quanto adoro jardins no meio da urbe, o que me levou logo à minha errância por Bruxelas, cidade que se fez minha e onde grassava muito da minha solitude, especialmente por esses espaços verdes a perder de vista. 

Eis que, de repente, fui interpelada por uns grandes olhos azuis, hipnóticos, doces, familiares e amistosos. 

Ela diz-me:

– Olá! não me estás a reconhecer pois não?

Pensou que, por momentos – e com algum receio que estava a denunciar na voz –, com a máscara no rosto eu não saberia a quem pertenciam aquelas safiras.

E eu respondo assertivamente sem titubear, “claro que sim.”

Ficamos ainda uns segundos sem saber bem o que dizer, até porque são dez anos, desde a última troca de palavras, que nos separam. Uma amizade dos tempos de escola e que, por arrufos da adolescência, ficou numa gaveta, arrumada, mas nunca esquecida, nem muito menos sarada. Tenho em crer que o fim de uma amizade, a perda de um grande amigo/a, pode custar e atormentar mais, muito mais, do que o fim de um grande amor.

Um amigo acompanha-nos nos amores, nas horas mortas, na inquietude da existência. 

No meio da minha comoção desarrumada, convidei-a a sentar-se no banco e, no fundo, novamente na minha vida. Ali, em quase uma hora fizemos um resumo sucinto, mas verdadeiro e puro, das nossas vivências na última década. 

E mesmo com tantos anos de distância parece que não se passou tempo algum, embora já não sejamos aquelas meninas jovens a fazer descobertas. Somos hoje mulheres. Maduras. E não deixamos que a separação nos coibisse de revelações ou até de confissões, como fazíamos em miúdas.

No final desse dia, que amanheceu escuro, difuso e desfragmentado, fiquei a pensar em "Como é Linda a Puta da Vida", como diria o grande Miguel Esteves Cardoso. 

Luso.eu - Jornal das comunidades
Cláudia Caires Sousa
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