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Crónica do Homem a dias



O Homem a Dias, como Herberto Dias gostava de pensar em si próprio, pois gostava de mexer em tudo, consertar os seus electrodomésticos e os dos amigos e vizinhos e também as ideias próprias e alheias, no fundo estava a continuar um antigo comportamento de maior  independência e autonomia que procurava seguir até ao fim, tinha este lema - Não dependas dos outros, ou depende o menos possível.

  1. D. e mãe, na noite de Natal, chegaram a casa, que estava quente, pois tinham deixado o lume aceso. H. D. vinha emocionado com os seus próprios pensamentos. Gostaria muito de partilhá-los com a mãe, mas esta sentia-se cansada e acabou por se recolher ao seu quarto de dormir. Ainda assim, H. D. acabou por resumi-las da seguinte forma

- Sabe, mãe, no fundo talvez o ser humano ainda esteja em criação. E nós não sabemos para onde vamos.

- É aí, filho, que somos chamados a participar. Tenho ouvido muito as palavras do Papa Francisco. Este Papa reconciliou-me com a Igreja. Ele está à frente de um rebanho que anda há muito tempo desorientado. Mas amanhã falaremos. Agora estou cansada, vou já deitar-me.

No dia de Natal, H. D. acordou cedo, e levantou-se logo, como gostava sempre de fazer. A primeira coisa que fez foi escrever um email ao Presidente da Câmara, que endereçou também aos diversos serviços camarários sobre o estado deplorável das calçadas. Com a prática de cidadão activo aprendeu que tinha sempre de apontar em diversas direcções.

Afinal, havia dinheiro para tanta coisa, só não havia para o óbvio? Depois saiu. Entre um Feliz Natal aqui e um Feliz Natal acolá. Ia observando atentamente o espaço em volta. Havia ruas novas, asfaltadas a negro e casas com muitos alumínios – tudo descaracterizando a sua aldeia. A casa do Tomé fora restaurada segundo a traça tradicional. Por dentro, imaginou, seria uma casa confortável, mas por fora mantinha a traça original, as paredes destacando o granito da casa dos pais – H. D. gostou de ver. Mas os passeios estavam levantados pelas raízes das árvores, por sinal plátanos. Há tantas árvores que se adaptam bem ao espaço urbano, tílias, por exemplo. As tílias dão flores de que se alimentam as abelhas e um perfume fresco. Mas plátanos? Nada disso. Ainda por cima já estavam podres, as folhas no chão são deslizantes como o vidro – portanto, um perigo. Era necessário evitá-las. Mais à frente, eram covas, que era necessário contornar. Tudo inibia os peões a deslocarem-se a pé, optando pelo automóvel. Era necessário mudar a forma como se vivem os espaços públicos, pensou.

Depois, passou pelo adro. O madeiro continuava a arder. Recordou a magia dos tempos de criança. Com a mãe vinha duas vezes por ano à aldeia. Vinha uma semana pelo Natal e depois todo o mês de Agosto, pelas férias de Verão.

Mais tarde, com o falecimento dos patrões da mãe, e o seu desejo de deixar o Porto e seus  desamores, e o regresso definitivo à aldeia,  tornaram possível que Herberto crescesse em liberdade na paisagem rural.

A paisagem humana e física moldam os humanos. Até as aves têm dialectos próprios. Os melros no Alentejo cantam de modo diferente dos melros da Beira Litoral. Os melros do Alentejo cantam com uma voz dura e rápida, e os melros da Beira Litoral com uma voz mais prolongada e suave – um pouco mais brumosa, pensava H. D., que se tinha tornado um verdadeiro ornitólogo, apenas por paixão.

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Manuel Silva-Terra
Author: Manuel Silva-TerraWebsite: https://www.luso.euEmail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
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Manuel Silva-Terra nasceu na freguesia de Orvalho, Beira Baixa. É professor de Filosofia e Psicologia. Fundou a editora Casa do Sul e a editora Licorne; editoras dedicadas ao ensaio, à cultura regional e à poesia. Organizou sete antologias de poesia de várias épocas. Como autor tem uma dúzia de livros publicados.
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